Areia da ampulheta

Por Isaias Costa

"Eu sou areia da ampulheta..."
“Eu sou areia da ampulheta…”

O Raul tinha uma lucidez impressionante e cada vez mais eu tenho essa certeza. Farei uma breve reflexão a partir de um carta inacabada de sua autoria e uma canção belíssima chamada “Areia da ampulheta”.

Cada vez que eu passo por um dia aqui, ali, cantando, olhando, pensando, eu vou adquirindo um novo conceito das coisas que me cercam. Acho que parei num lugar; parece que meus conceitos próprios chegaram. Dúvidas de mim já não tenho. Sei dos caminhos e de como eles são. O dia a dia fez de mim um homem mais calmo, mais sereno, menos desvairado. Nós (você, eu, Sérgio, Walter) somos velhos e estamos caminhando para nascer, e enquanto não nascemos “levamos nosso cão raivoso” para passear. Amizades mais calmas, mais escolhidas (achei boa companhia), bom papo, cervejas em botecos longe da fumaça e da poluição, pois esta cidade não pára!! Eu preciso dar um descanso à máquina. Já não há escapatória para a nossa civilização. Somos prisioneiros da vida e temos que suportá-la até que o último viaduto nos invada pela boca adentro e viaje eternamente em nossos corpos. Há dias calmos aqui também. Manhãs que passam manhosas entre os móveis e automóveis e a gente vai percebendo, aos poucos, que o capim do parque ainda é verde. A gente enche os pulmões, pega um tema e sai assoviando. Só ando de ônibus. Cheguei à conclusão que eu me aborreço 99% menos. Ônibus não é tão mau quanto eu pintava. Em cada carta eu lhe falo um pouco sobre esse movimento “Cavernismo”, que é um movimento de tendências universalistas.”

Carta inacabada ao irmão Plínio Seixas

O que o Raul está querendo dizer com essas palavras é sobre a profunda relação que existe entre a SABEDORIA e a SERENIDADE. Quanto mais sábios vamos nos tornando, mais vamos abrindo espaço nos nossos corações para a serenidade. O Raul passou muitos anos da sua vida se aprofundando nas teorias dos homens mais geniais que esse mundo já teve e adquiriu uma sabedoria e um conhecimento sobre o homem e a vida extremamente abrangente. É impressionante ler ele dizer: “Dúvidas de mim já não tenho”. Nossa! Ele sabia quem ele era, pra quê estava neste mundo e qual era a sua missão. Eu não sei nem muito bem quem eu sou, estou nesta busca todos os dias. Sei que estou cada vez mais perto de ser aquilo que sonho pra mim e sei que estou no caminho certo, mas eu tenho a impressão de que o Raul já sabia disso desde muito novo. Há escritos de sua adolescência em que ele dizia que queria se tornar um mito, alguém para iria ser lembrado e homenageado por muito tempo, e o cara acertou em cheio. Aqui estou eu e mais milhares de pessoas que eternizam a sua obra fantástica.

Ele fala que não há escapatória para a nossa civilização, ou seja, esse mundo é uma prisão, nossos corpos são uma prisão. Essas palavras aparentemente inofensivas e inocentes carregam uma transcendência incrível. O Raul sabia bem que somos seres muito maiores do que nossos corpos e que um dia vamos nascer e esse nascimento se dará depois da partida deste mundo.

Ele ilustra muito bem esses seus pensamentos na linda música “Areia da ampulheta”. A sua letra e vídeo estão logo abaixo.

Areia da ampulheta- Raul Seixas

Eu sou a areia da ampulheta
O lado mais leve da balança
Balança que não me aguenta
O ignorante cultivado
O cão raivoso inconsciente
O boi diário servido em pratos
O pivete encurralado
Eu sou a areia da ampulheta
O vagabundo conformado
Sem nunca se ter reformado
O que não sabe qual o lado
Espreita o pesar das pirâmides
Cachaceiro mal amado
O triste-alegre adestrado
Eu sou a areia da ampulheta
O que ignora a existência
De que existem mais estados
Sem idéia que é redondo
O planeta onde vegeta
Eu sou a areia da ampulheta
Eu sou a areia
Eu sou a areia da ampulheta
Mas o que carrega a sua bandeira
De todo o lugar o mais desonrado
Nascido no lugar errado
Eu sou, eu sou você

****

Confesso que essa é uma das suas letras mais tristes, porém ela tem uma sabedoria incrível. Essa areia da ampulheta é exatamente essa vida que se esvai aos poucos. Nosso corpo que vai morrendo um pouquinho mais a cada dia e nossa consciência que vai se elevando a medida que morremos.

Todas as frases desta composição levam a conclusão de que o Raul se achava um estranho nesse mundo. Ela foi composta e lançada em 1988, um ano antes de sua morte. Nessa época, várias das suas canções tinham essa tendência mais depressiva. O Raul estava sofrendo com suas dúvidas de ordem mais universal. Ele queria fazer alguma coisa para levar mais consciência aos outros, mas ele tinha cada vez mais certeza de que isso seria impossível. Essa certeza o deixava profundamente triste e deprimido.

De vez em quando tenho também esses pensamentos tristes e depressivos, mas procuro focar minha mente em bons pensamentos, procuro fazer atividades físicas, ouço músicas legais, procuro a presença das pessoas que eu amo. Se não fizesse isso acho que eu “piraria o cabeção”. Minha mente não pára um minuto de ficar refletindo sobre a vida, sobre as mazelas do mundo, sobre as injustiças, sobre as tendências musicais, sobre a corrupção no Brasil, sobre as guerras no Oriente etc etc.

Eu sei que o mundo é cheio de mazelas, mas sei que não posso dar uma de herói e querer consertar o que não dá para ser consertado, por isso me tranquilizo, me aquieto, respiro e vou seguindo minha vida normalmente.

Eu admiro muito o Raul, ele tinha um coração muito bondoso. Tudo que ele mais queria era levar as pessoas a elevarem seu nível de consciência, crescerem em amor, se tornarem pessoas mais críticas, mais originais, menos formatadas e engessadas neste sistema doente.

O Raul fala que nasceu no lugar errado, ou seja, ele queria viver em um lugar que não houvesse tantas injustiças, tanto ódio, tanto desamor, tanta vingança, tanta ganância. Ele sabia que nunca viveria neste lugar e se afundou no cigarro, drogas e acima de tudo, nas bebidas alcoólicas.

Li em um trabalho de dissertação chamado “Raul Seixas: a mosca na sopa da ditadura militar”, do filósofo Paulo Santos Seixas, uma citação do Raul escrita uma noite antes da sua morte, dia 20 de agosto de 1989 e revela o quão triste e abatido ele estava.

A coisa mais gostosa que tem é falar alto sem ninguém pra me ouvir exceto eu mesmo. A minha voz ecoando nos Aires da minha solidão enorme. Eu sei que amanhã (dia de show) vou rir do que escrevi. É que a vida é uma coleção de momentos. Vou esquentar meu peixe, ver tv, pois tv tem som e imagem. Agora! Estou com a tv ligada que me anuncia um filme: Promessa de Sangue. Sofrendo uma crise de solidão. É horrível. Eu coloco um disco de New Orleans orquestrado e sento no fogão à espera da panela esquentar e eu canto À beira do pantanal .

Eu só sou gente e feliz quando estou com “Marceleza” no palco, quando desço de lá o meu mundo morre pra mim!”

Aprendamos do Raul o que ele tanto falava: “Cada um de nós é uma estrela…”. Nós estamos neste mundo por um tempo muito curto, façamos algo de bom nesse tempo, o mundo já tem gente demais fazendo atrocidades, maldades. Sejamos diferentes, sejamos essa luzinha que ilumina os nossos arredores, utilizemos nossos talentos pessoais para ajudar as pessoas, para inspirá-las, para crescermos em amor. O Raul sempre quis isso e eu aprendi muito com ele. Gostaria que você refletisse um pouco sobre isso…

Através destes textos do blog quero levar você a mergulhar nos pensamentos deste gênio e, quem sabe, aprendendo um pouquinho a cada dia com sua genialidade. Se tornar um grande ser humano.

O tempo é curto, a nossa vida passa muito depressa, a areia da nossa ampulheta está escorrendo o tempo todo, quando menos esperarmos ela já terá passado totalmente para a parte de baixo, quando enfim, vamos nascer, nascer para uma vida que espero ser bem mais colorida, feliz e exuberante que essa…

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  • Para ouvir a leitura desse texto basta clicar [aqui]
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