O “outsider” Raul Seixas

Por Isaias Costa

Raul+Seixas+++Brazil++Rock++70sOutro dia li na página “Para sempre Raul Seixas”, no facebook, um trecho bem interessante do livro “Raul Seixas por ele mesmo”, falando dobre o “outsider” Raul, ou seja, um cara que fazia questão de ser diferente de todas as outras pessoas comuns da sociedade.

Vale muio a pena a sua leitura para aprender um pouquinho mais sobre esse genial maluco beleza…

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Raul Seixas era um filósofo antes de ser um músico. Se fosse apenas músico, não se diferenciaria muito de Sílvio Brito. É claro que, se fosse apenas filósofo, não se diferenciaria de qualquer louco loquaz comum e ninguém prestaria atenção nele. É a combinação de uma percepção original (e às vezes genial) do mundo, aliada à sua capacidade de transformar isso em música (e letra) que faz de Raul Seixas um personagem fundamental da cultura brasileira. Sei que neste NÃO muito se falará das qualidades artísticas de Raul Seixas, de modo que vou tentar me concentrar em seus postulados filosóficos.


Talvez a melhor maneira de compreender Raul Seixas seja através da leitura de “O outsider”, do inglês Colin Wilson (um autor, aliás, que merece ser redescoberto). Quase tudo o que se conta no livro sobre Nijinski, Van Gogh e Dostoiesvski aplica-se perfeitamente à vida e à obra de Raul Seixas. O “outsider” (tentei fazer uma tradução, mas não consegui) é aquele cara que “vê” o mundo de uma maneira diferente. Ele tem a capacidade de enxergar coisas que o cidadão comum não enxerga. Ele desvenda a superestrutura da sociedade; ele consegue achar os nexos lógicos da vida onde os outros só vêem o caos.


Esta capacidade não leva a uma vida mais feliz. Pelo contrário. Mesmo utilizando a arte para dar vazão ao que vê e sente, o “outsider” sabe que está fora do mundo, acha que não pertence a ele, que sua vida está irremediavelmente afastada das satisfações cotidianas das pessoas normais, do grande exército de “insiders” que povoa este planeta. Solidão quase absoluta (mesmo cercado de amigos e fãs), frustração com a vida amorosa e dificuldade para relacionar-se com as regras e estruturas da sociedade (mesmo as mais simples) são características que Raul Seixas apresentou em toda a sua vida. Vida, aliás, que teve um fim tão triste quanto o de vários de seus colegas “outsiders”.


Raul Seixas falava bastante de uma “Sociedade alternativa”, com a ajuda, é claro, do hoje execrável Paulo Coelho. Para efeitos deste texto, vou desconsiderar quem assina as letras, porque creio que Raul acreditava em cada palavra do que cantava, tendo escrito ou não.


Em “Sociedade alternativa” – “Se eu quero e você quer / tomar banho de chapéu / ou esperar Papai Noel / ou discutir Carlos Gardel / então vá: faz o que tu queres pois é tudo da lei”.


Em “Novo Aeon” – “Querer o meu não é roubar o seu / pois o que eu quero é só função do eu / sociedade alternativa, sociedade novo aeon / é um sapato em cada pé / é direito de ser ateu ou de ter fé / ter prato entupido de comida que cê mais gosta / é ser carregado e carregar gente nas costas / direito de ter riso, de prazer / e até direito de deixar Jesus sofrer.”


Em “As aventuras de Raul Seixas na cidade de Thor” – “Eu já passei por todas as religiões / filosofias, políticas e lutas / aos onze anos de idade eu já desconfiava / da verdade absoluta.”


O que propõe Raul Seixas? Objetivamente, nada. Um de seus versos mais legais é justamente “A única linha que conheço é a linha de empinar uma bandeira”. Ele não era de esquerda, muito menos de direita (se bem que, no seu último disco individual, já bastante fragilizado e confuso, flertou com ela). Anarquista? Acho que não. No máximo aproveitou idéias e imagens dessa turma suficientemente anarquista para evitar o rótulo.


(Na edição especial da revista “Caros amigos” sobre Raul Seixas, o próprio aparece vestindo uma camiseta anarquista, mas, no final de sua vida, inchado pela diabetes e destruído pelo éter, Raul certamente não sabia mais a diferença entre anarquismo e trans-sexualismo.)


Raul Seixas tinha uma relação profissional estreita com a indústria do disco, produziu bastante e procurou adequar-se ao mercado. O que não o impediu de ser um livre atirador. Era um “outsider” clássico, que mandava suas mensagens ao mundo sem se preocupar em consertá-lo. O que seria impossível, pois ele estava completamente fora do mundo.


Mas vamos lá: o que sobrou da sociedade alternativa de Raul, que renega as religiões, filosofias, políticas e lutas que todos conhecemos? O que sobrou da utopia da geração Raul Seixas, que acreditava numa sociedade com outras regras?


Aparentemente, sobrou apenas o “mago” Paulo Coelho, que vende milhões de livros no mundo todo e continuará enganando o pessoal por muitos e muitos anos. Raul Seixas está morto há dez anos e a tal sociedade alternativa nunca saiu do papel. Até seus milhares de fãs, que hoje são identificados pela imprensa como um bando de hippies tardios, continuam sendo apenas uma caricatura – divertida, mas inconseqüente – do próprio Raul. Eles “cantam” a sociedade alternativa, mas não conseguem vivê-la.


Vamos falar a verdade: a sociedade em que vivemos hoje é tão careta e reacionária quanto a de nossos pais e avós. Ninguém consegue viver “diferente”. Ninguém apresenta uma solução nova para as velhas angústias que envolvem o sexo, a constituição de uma família, a divisão de responsabilidades entre homens e mulheres, a relação com os filhos, etc. Talvez tenhamos evoluído um pouco no trato com o homossexualismo, que deixou de ser crime, mas nada que a Grécia antiga já não tenha institucionalizado.


A importância, hoje, de lembrar Raul Seixas é constatar a derrota da nossa geração, que construiu alguma cultura para cuspir na estrutura, mas não a desestabilizou nem um pouco. A democracia representativa, que está morta faz tempo, segue como o único modelo prático de organização política. Que tristeza… A antiga família patriarcal, a “célula mater da sociedade”, continua como único modelo de organização social. Que caretice! E o capitalismo, que antes pelo menos tinha pesadelos com o socialismo, agora posa de único modelo econômico possível num mundo globalizado (argh!). Que horror.


A “sociedade alternativa”, que um dia já pareceu tão possível que levou Raul a ser interrogado e torturado pela ditadura (“Me diz aí o nome dos integrantes dessa sociedade…”) hoje não assustaria nem aos arapongas neo-liberais do Fernando Henrique. Todos se dizem alternativos. Há uma música alternativa, um teatro alternativo, um cinema alternativo. Mas uma “sociedade alternativa” não há. Talvez nunca haja.


Algumas pessoas, é claro, ainda escolhem ter uma vida alternativa. Uma opção individual e que exige uma dose de coragem que beira a loucura. Estas pessoas, caro leitor, estão condenadas. Porque não há, no final do milênio, direito de ter riso, de ter prazer, e muito menos direito de deixar Jesus sofrer.

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