Uma análise da depressão de Raul Seixas

Por Isaias Costa

raul-seixas-Esse texto é uma espécie de ensaio sobre um tema profundo relacionado ao Raul Seixas e deixo aberto para quem quiser contribuir com alguma ideia, com algo que não falei etc. Fique à vontade para comentar.

Farei uma análise mais profunda sobre a depressão do Raul Seixas. Todos nós sabemos que ele morreu por conta de uma pancreatite aguda, agravada pela diabetes e sem dúvida alguma, também acelerada pelo seu intenso sofrimento existencial e tristeza.

Por que o Raul se deprimiu? São muitas as causas e vou analisar apenas algumas.

Já li bastante sobre a sua vida e o que se fala sobre sua infância e família é que eles tinham uma boa educação e eram tradicionalistas. Porém, a natureza humana do Raul desde cedo já se mostrou questionadora e extremamente curiosa. Ou seja, ele era naturalmente afeito às questões filosóficas e existenciais.

As velhas perguntas de todos os seres humanos sempre atormentavam sua mente: “Quem sou eu? Por que eu nasci? Por que estou aqui? Por que sou brasileiro? Pra onde eu vou depois que morrer? etc”.

Daí começou a surgir o cara que iria revolucionar a música brasileira. Não é à toa que ele disse em uma de suas músicas: “Aos 11 anos de idade eu já desconfiava da verdade absoluta…”.

Com o imenso talento do Raul para compor e cantar, ele atingiu o topo do sucesso em 1973 com seu primeiro álbum solo chamado “krig-ha bandolo!”, quando tinha 28 anos. Perceba! Com apenas 28 anos o Raul já tinha tudo que o dinheiro pode proporcionar: fama, sucesso, carros, viagens etc. etc.

Mas o Raul era um cara diferente! É a partir daí que começamos a perceber sua natureza humana mais voltada para o espiritual e transcendente. Inclusive, há uma belíssima frase dele que resume essa busca pelo transcendente:

Do materialismo ao espiritualismo é uma simples questão de esperar esgotarem-se os limites do primeiro.”

Ou seja, o Raul passou do intenso materialismo para o espiritualismo. É aqui que vemos a contribuição do Paulo Coelho na sua vida. Que foi positiva e negativa ao mesmo tempo, mas falo a partir da minha concepção que considero ter sido mais negativa que positiva e vou explicar o porquê. Isso é fundamental para analisar a depressão do Raul Seixas.

A infância do Raul foi pautada em valores humanos, éticos, religiosos etc. Ele foi bem educado e sempre levou isso com ele. Não é à toa que em todas as entrevistas que fizeram com pessoas que conviviam com ele, diziam que ele era super educado, falava baixo, se expressava com eloquência, era amoroso, carinhoso, gostava de brincar… Era um cara simples e de ótima convivência.

Aí o Paulo Coelho junto com mais alguns “malucos belezas” começaram a lhe levar ao mundo das drogas e do alcoolismo. Aqui começa sua autodestruição. Ele tinha muitas virtudes, mas um dos seus grandes defeitos era ser muito influenciável. Ele não tinha seus valores tão firmes e enraizados. É por isso também que ele sempre se dizia ser uma “metamorfose ambulante”, porque acreditava em uma coisa em um momento, depois em outra, dizia uma coisa, depois desdizia, falando o contrário…

Essa falta de convicção dos valores do Raul o deixou muito susceptível a cair em vícios, e foi o que aconteceu, ele se tornou viciado em algumas drogas, mas acima de tudo, em bebidas alcoólicas.

O Paulo Coelho, depois de ter uma experiência de ver o diabo personificado lhe atomentando, decidiu sair da sociedade alternativa e se converteu ao cristianismo. Ao fazer isso, ele abandonou seu amigo Raul, não fez um esforço de ajudá-lo a ter uma espiritualidade mais trascendente. Assim, eles perderam quase que totalmente o contato. É por isso que considero sua contribuição mais negativa que positiva, porque ele apresentou uma filosofia profunda e o ocultismo ao Raul, além das drogas de todos os tipos, mas não o ajudou a sair deste caminho que o levou à autodestruição.

A partir dos seus vícios e das más companhias, ele foi deixando de ser esse Raul mais formal e educado e literalmente se tornou um ator. Ele tinha o nome Raul Seixas como um personagem que foi tão bem interpretado que passou a sê-lo também no dia a dia com a família.

Essa natureza maluca e rebelde não era boa para quem queria ser um bom pai de família. “Como ele poderia ser um exemplo bebendo e se drogando?” Esse era um questionamento comum entre suas esposas e familiares.

O Raul se casou 5 vezes muito por isso. Suas esposas não conseguiam conviver com um cara tão instável e tão dependente do álcool. Esse vício contribuiu para que ele desgastasse todos os seus casamentos.

Agora vem uma informação muito importante! O Raul colecionou muitas e muitas perdas na sua vida.

Além dos 5 casamentos mal sucedidos, teve também a repressão da ditadura militar, um período em que ele não tinha nenhum contrato com gravadoras etc.

Essa coleção de perdas o fez se tornar mais triste e o fez procurar o álcool ainda mais como um mecanismo de fuga para a sua dor que crescia mais e mais a cada dia.

Guarde bem essa informação! Eu gosto muito de ler sobre a “Linguagem do corpo”, que no Brasil tem como principal divulgadora a professora e escritora Cristina Cairo. Você pode ler mais sobre isso no site dela, o link pode ser acessado [aqui].

Segundo a linguagem do corpo, só adquire diabetes as pessoas que sofreram muitas perdas ao longo da vida. Foi o caso do Raul, suas muitas perdas e sofrimento gerado por elas o levou a desenvolver uma diabetes e seu vício em álcool o levou a desenvolver uma pancreatite.

Além disso, tem o fato de ele ter feito várias cirurgias de retirada de pedaços do fígado por causa da cirrose, também provocada pelo consumo excessivo de bebidas alcoólicas. Quando o Raul morreu, ele tinha perdido 2/3 do seu fígado. Foi muita autodestruição…

As principais causas para a depressão do Raul Seixas foram essas: muitas perdas na sua vida, excessos de tudo (o que comprometeu a sua saúde), a perda de sentido para as coisas do mundo e a falta de boas referências na sua vida.

O Raul poderia ter sido um dos maiores espiritualistas do seu tempo, se tivesse sido bem orientado por algum mestre espiritual. Mas sempre vem aquela pergunta: “Será que se ele tivesse sido diferente do que foi teria se tornado um mito?”… Essa é uma pergunta bem capciosa, porque teria sido muito bom que ele tivesse vivido mais, porém, eu acredito que nos 44 anos que ele esteve neste planeta ele fez o melhor que pôde e seguiu seu próprio caminho. Na medida do possível ele foi uma pessoa feliz. Seu grande problema foi a autodestruição pelos vícios.

Tempos atrás fiz uma análise da sua linda música “Diamante de mendigo”, na qual ele fala que perdeu sua família exatamente por conta dos vícios. Se você não leu esse texto, deixo o link abaixo.

A fortaleza que se chama família

Não canso de repetir que o Raul é uma das minhas referências por diversos motivos, e o principal é esse: ele era AUTÊNTICO. Ele viveu profundamente o que acrditava ser o melhor para ele, e sendo assim, acabou se tornando um mito. É uma alegria para mim poder resgatar um pouco do que foi esse grande ser humano.

Basicamente era isso! Sei que há muito mais a ser dito e se quiser, mais uma vez repito, fique à vontade para comentar. Viva Raul!

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Uma análise da depressão de Raul Seixas

9 comentários sobre “Uma análise da depressão de Raul Seixas

  1. Difícil realmente analisar se ele seria um mito ou não, até pq ele se transformou um mito muito por conta dos vícios. A massa gosta disto, assim foram criados vários ídolos do rock. É a regra. Exceção é um cara que nem você analisar e se aprofundar nas letras e na filosofia de vida do artista, buscando colher o essencial, a alma do artista. Talvez, se ele não tivesse tido tantos vícios, ele não tivesse tido muita fama, mas com certeza teria alcançado mais respostas as suas indagações, fragilidades e incertezas. Teria alcançado um nível espiritual mais profundo, o que não é interesse da grande massa!

  2. José Acácio disse:

    Eu confesso que era um jovem, tímido, medroso, meio assustado com tudo, medo de está em evidência, medo de aparecer em público (medo até dos mortos), etc. Sai da minha terra aos 19 anos para São Paulo, no intuito de ganhar a vida e estudar, com toda essa timidez; em 1973. Lá em Sampa conheci na porta de uma firma desempregado como eu, um maluco trajado de Ryppi, que me convidou para passar na sua casa para ouvir o som de um baiano muito louco. Lá vamos nós, cheguei na casa do cara ele me apresentou um vinil e uma meletinha que rodava o tal (vitrola), que na capa tinha Raul Seixas, Krig-ha, bandolo. Escutei o cara e apaixonei pelas letras.Ai cada vez que saia um lançamento eu comprava, comprei também a vitrola, logo após o primeiro emprego. Ai comecei absorver as letras do Raul e me transformei completamente. Essa eu curto muito: Vai grita ao mundo que você está certo! (loteria de Babilônia)Ah! Mas que sujeito chato sou eu, que não acha nada engraçado,macaco, praia, carro, jornal, tobogã. Eu acho tudo isso um saco! Tenha fé em Deus, tenha fé na vida,Tente outra vez! Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo! Viva Raul, toca Raul, luar você é meu nome ao avesso!

    1. Gosto muito do Fernando Pessoa, mas nunca li nada sobre sua biografia. Não sabia que ele tinha morrido de pancreatite. E olha só! Com a mesma idade do Raul, é muita coincidência.
      Muito obrigado pela sugestão. Vou estudar um pouco da biografia dele e conhecê-lo melhor!!
      Grande abraço!

  3. Erick Seixas disse:

    O Raul , não morre nunca
    Por que sua inteligência e sua coragem faz seus fãs nunca desistir de uma jornada.
    A musica mais linda que existe nesse país é ” Ouro de Tolo ” por que ele fala da vida antes de vence – lá simplesmente Mito , escrevi 4 poesias para ele meu pai, seu pai , nosso pai
    Raul a mosca que nasceu há dez mil anos atrás e passeia no nosso trem das sete , sendo uma metamorfose ambulante .
    Então viva o Raul sempre
    Raul o Raulseixismo sempre vai te amar….

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