Aprendendo a duvidar com Raul Seixas e Ferreira Gullar

Por Isaias Costa

Rodin le penseur

O Raul Seixas era um questionador nato. Duvidava de tudo, raramente tinha uma opinião formada inflexível e engessada sobre alguma coisa. Uma palavra que estava presente o tempo inteiro no seu vocabulário e passei a incluir no meu é a palavra TALVEZ. O Raul nunca dava certeza absoluta sobre nada. Até mesmo coisas que para o senso comum são verdades absolutas, para o universo de Raul Seixas, não eram. Eu adoro uma das suas frases da música “Faça Fuce Force” que diz assim: Que o mel é doce, é coisa de que me nego a afirmar, mas que parece doce eu afirmo plenamente. Essa frase é incrível e mostra o quanto o pensamento do Raul estava acima da média.

O que é o doce? Para nós o doce é a sensação boa que temos quando comemos algo que chamamos de doce. Tudo aquilo que possui glicose e dá a sensação gustativa do que chamamos de “doce”. Aqui está a grande questão. “Doce”, são apenas 4 letrinhas: d-o-c-e. Que quando pronunciadas, nos remetem a sensação gustativa do doce. Mas uma pessoa, se ela quiser, pode simplesmente dizer: “Não! Para mim, isso não é doce, é salgado”. Algum problema com isso? Eu não vejo problema nenhum. Sabe qual é o grande problema com isso? Quem ousa fazer isso ou dizer isso é tachado pelas pessoas como louco, como um desvairado, como alguém que só quer ser “do contra”. Por quê? Eu não tenho direito de dizer a mim mesmo que algo é salgado em vez de doce? Pois é! Era isso que o Raul queria levar as pessoas a pensarem através desta música. Estamos numa sociedade que rotula tudo, que define tudo, que diz que tudo tem que ser de um único jeito e ponto. Eu não penso desta forma e quero lhe levar a refletir sobre isso hoje.

O que nos faz começar a crescer nisso é se questionar, fazer mais perguntas a si mesmo. Por que isso? Por que aquilo? Assim, vamos abrindo espaço na nossa mente para que criemos nossas próprias opiniões, fora da caixinha, como diria o empresário Flávio Augusto. O Raul era um cara muito flexível, sabia ouvir opiniões diferentes das dele sem ficar condenando, sem ficar apontando o dedo na cara das pessoas dizendo: “Você está errado!”. Não! Ele era extremamente respeitoso quanto a isso. Aqui não posso deixar de falar das pessoas religiosas inflexíveis. Eu acho isso uma verdadeira doença. Pode me condenar se quiser, eu não me importo com isso. Existem muitas pessoas religiosas que querem provar por A + B que só a sua religião pode levar até Deus, que é preciso se converter. Ou que “só Jesus salva”. Eu acho isso uma tremenda hipocrisia. E as sociedades que não são cristãs? Existem muitos países que só ouvem falar de Jesus Cristo por ele ser cultuado no Ocidente, só por isso. Mas que possuem uma cultura religiosa totalmente desvinculada do cristianismo. Todas essas pessoas vão “queimar no mármore do inferno” porque não aceitaram Jesus como “único e suficiente salvador”? Pode ter certeza que não! Elas só vão queimar no inferno das mentes das pessoas inflexíveis.

Eu admiro profundamente o mestre Dalai Lama porque, apesar de ele ser um homem religioso, é muito flexível e sempre, SEMPRE pauta seus discursos na ÉTICA e na COMPAIXÃO. Uma vez li umas palavras suas que se encaixam perfeitamente aqui.

Às vezes sou tão flexível que sou acusado de não ter coerência política. Alguém pode vir a mim e apresentar uma ideia. E eu vejo a razão para aquilo que a pessoa diz e concordo com ela, comentando que é ótimo… Mas então aparece outra pessoa com um ponto de vista contrário, eu também vejo a razão para o que está dizendo e concordo também com ela. Às vezes sou criticado por isso e preciso me relembrar que estamos comprometidos com tal e tal conduta e que por enquanto devemos nos ater a esse lado”.

Se você prestar atenção! O Dalai Lama está dizendo estas palavras para falar sobre seus princípios religiosos. Ele é acusado por muitas pessoas como sendo alguém incoerente, que prega uma coisa e vive outra, ou que não vive o Budismo verdadeiramente etc. Será mesmo? Para mim, quem faz tais questionamentos não entende profundamente e muito provavelmente se sente incomodado com sua flexibilidade. E você? Também se sente incomodado com a flexibilidade do Dalai Lama? Eu não! Eu amo esse grande mestre, e ele tem me ajudado muito a crescer no campo da ÉTICA, uma palavra riquíssima que não cabe num texto como esse, por ser extremamente abrangente.

Que você reflita um pouco sobre essas questões tão importantes e aprenda a duvidar, a ter uma opinião só sua, totalmente original, aprenda a ser mais flexível, a respeitar as opiniões dos outros, a não achar que suas verdades são universais… O Raul sempre ensinava tudo isso e muito mais em suas músicas, mas poucos são os que acolhem sua mensagem libertadora.

Para continuar refletindo e se aprofundando neste tema, compartilho um texto genial do grande escritor e poeta Ferreira Gullar.

O benefício da dúvida- Por Ferreira Gullar

 Difícil é lidar com donos da verdade. Não há dúvida de que todos nós nos apoiamos em algumas certezas e temos opinião formada sobre determinados assuntos; é inevitável e necessário. Se somos, como creio que somos, seres culturais, vivemos num mundo que construímos a partir de nossas experiências e conhecimentos. Há aqueles que não chegam a formular claramente para si o que conhecem e sabem, mas há outros que, pelo contrário, têm opiniões formadas sobre tudo ou quase tudo. Até aí nada de mais; o problema é quando o cara se convence de que suas opiniões são as únicas verdadeiras e, portanto, incontestáveis. Se ele se defronta com outro imbuído da mesma certeza, arma-se um barraco.

De qualquer maneira, se se trata de um indivíduo qualquer que se julga dono da verdade, a coisa não vai além de algumas discussões acaloradas, que podem até chegar a ofensas pessoais. O problema se agrava quando o dono da verdade tem lábia, carisma e se considera salvador da pátria. Dependendo das circunstâncias, ele pode empolgar milhões de pessoas e se tornar, vamos dizer, um “fuhrer”.

As pessoas necessitam de verdades e, se surge alguém dizendo as verdades que elas querem ouvir, adotam-no como líder ou profeta e passam a pensar e agir conforme o que ele diga. Hitler foi um exemplo quase inacreditável de um líder carismático que levou uma nação inteira ao estado de hipnose e seus asseclas à prática de crimes estarrecedores.

A loucura torna-se lógica quando a verdade torna-se indiscutível. Foi o que ocorreu também durante a Inquisição: para salvar a alma do desgraçado, os sacerdotes exigiam que ele admitisse estar possuído pelo diabo; se não admitia, era torturado para confessar e, se confessava, era queimado na fogueira, pois só assim sua alma seria salva. Tudo muito lógico. E os inquisidores, donos da verdade, não duvidavam um só momento de que agiam conforme a vontade de Deus e faziam o bem ao torturar e matar.

Foi também em nome do bem — desta vez não do bem espiritual, mas do bem social — que os fanáticos seguidores de Pol Pot levaram à morte milhões de seus irmãos. Os comunistas do Khmer Vermelho haviam aprendido marxismo em Paris não sei com que professor que lhes ensinara o caminho para salvar o país: transferir a maior parte da população urbana para o campo. Detentores de tal verdade, ocuparam militarmente as cidades e obrigaram os moradores de determinados bairros a deixarem imediatamente suas casas e rumarem para o interior do país. Quem não obedeceu foi executado e os que obedeceram, ao chegarem ao campo, não tinham casa onde morar nem o que comer e, assim, morreram de inanição. Enquanto isso, Pol Pot e seus seguidores vibravam cheios de certeza revolucionária.

É inconcebível o que os homens podem fazer levados por uma convicção e, das convicções humanas, como se sabe, a mais poderosa é a fé em Deus, fale ele pela boca de Cristo, de Buda ou de Muhammad. Porque vivemos num mundo inventado por nós, vejo Deus como a mais extraordinária de nossas invenções. Sei, porém, que, para os que creem na sua existência, ele foi quem criou a tudo e a todos, estando fora de discussão tanto a sua existência quanto a sua infinita bondade e sapiência.

A convicção na existência de Deus foi a base sobre a qual se construiu a comunidade humana desde seus primórdios, a inspiração dos sentimentos e valores sem os quais a civilização teria sido inviável. Em todas as religiões, Deus significa amor, justiça, fraternidade, igualdade e salvação. Não obstante, pode o amor a Deus, a fé na sua palavra, como já se viu, nos empurrar para a intolerância e para o ódio.

Não é fácil crer fervorosamente numa religião e, ao mesmo tempo, ser tolerante com as demais. As circunstâncias históricas e sociais podem possibilitar o convívio entre pessoas de crenças diferentes, mas, numa situação como do Oriente Médio hoje, é difícil manter esse equilíbrio. Ali, para grande parte da população, o conflito político e militar ganhou o aspecto de uma guerra religiosa e, assim, para eles, o seu inimigo é também inimigo de seu Deus e a sua luta contra ele, sagrada. Não é justo dizer que todos pensam assim, mas essa visão inabalável pode ser facilmente manipulada com objetivos políticos.

Isso ajuda a entender por que algumas caricaturas — publicadas inicialmente num jornal dinamarquês e republicadas em outros jornais europeus — provocaram a fúria de milhares de muçulmanos que chegaram a pedir a cabeça do caricaturista. Se da parte dos manifestantes houve uma reação exagerada — que não aceita desculpas e toma a irreflexão de alguns jornalistas como a hostilidade de povos e governos europeus contra o islã—, da parte dos jornais e do caricaturista houve certa imprudência, tomada como insulto à crença de milhões de pessoas.

Mas não cansamos de nos espantar com a reação, às vezes sem limites, a que as pessoas são levadas por suas convicções. E isso me faz achar que um pouco de dúvida não faz mal a ninguém. Aos messias e seus seguidores, prefiro os homens tolerantes, para quem as verdades são provisórias, fruto mais do consenso que de certezas inquestionáveis.

Site: O benefício da dúvida

 * Texto complementar

A arte da dúvida

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