Aquela velha opinião formada

Por Isaias Costa

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Li um artigo incrível do médico e psicoterapeuta Humberto Mariotti com título “O automatismo concordo-discordo e as armadilhas do reducionismo”, que falava sobre essa tendência de muitas pessoas para reduzir as discussões, deixando prevalecer apenas seus pontos de vista como se fossem verdades absolutas, sem deixar abertura para pensamentos diferentes, ou ideologias diferentes etc.

Alguns trechos me fizeram refletir bastante, como esse aqui:

“Tendemos a reduzir nossas compreensões às dimensões do nosso ego, que é frágil, medroso e teme a reampliação. Teme-a porque ela o põe à prova, leva-o a confrontar as suas percepções e entendimentos com os dos outros. Como está preparado para competir, o ego sempre vê os outros como adversários, e portanto sente-se sempre ameaçado por eles. Por isso, pensar segundo modelos predeterminados e buscar apoio em referenciais que julgamos inquestionáveis (pressupostos) tornou-se uma forma de remediarmos a nossa fraqueza”.

Nesse trecho ele está falando em um dos principais motivos de muitas pessoas não se abrirem para discussões e diálogos em que são questionadas em seus princípios, crenças, ideologias, religiões etc. O EGO funciona na nossa mente e no nosso comportamento como uma espécie de ESCUDO, para nos proteger do pensamento dos outros, mas principalmente, para não nos levar a própria mudança de pensamento influenciado pelos outros.

Não posso deixar de falar daquelas pessoas extremamente religiosas e que são fanáticas em suas religiões. A grande maioria delas não sabe conversar, não sabe dialogar, não sabe discutir. Quando algo relacionado à sua fé é colocado em debate elas já levantam a voz e falam de maneira agressiva, não se abrindo para pensamentos e opiniões diferentes das suas. Estão dominadas pelo EGO e nem percebem. O EGO é o que nos faz ser impenetráveis e é ele também que atrapalha o nosso crescimento crítico e intelectual.

O que o Humberto fala é bem verdade: “o ego sempre vê os outros como adversários, e portanto sente-se sempre ameaçado por eles”. Um pensamento fora de suas crenças é uma verdadeira ameaça, por isso deve ser cortado na raiz. Mas por quê? Será algo tão destruidor assim um pensamento diferente do seu? Eu acredito profundamente que não. Na realidade, eu acredito que nos tornamos cada vez mais sábios quando sabemos escutar um pouco de tudo e de todos e saber filtrar tudo aquilo de bom que vem em todos os pensamentos. Essa é a principal mensagem que quero deixar a você hoje. Eu adoro ler um pouco de tudo, e aprendo com fontes das mais diversas possíveis, inclusive fontes que se dissesse aqui, seria apedrejado sem piedade por vários leitores…

Uma vez eu li um artigo excelente do jornalista, escritor e cartunista Luciano Pires chamado “Sobre fascismo e a arte de comer picanha”, no qual ele mostra exatamente a forma que penso. Ele associa a busca pelo conhecimento com uma picanha suculenta. Antes de comer, ele retira a maior parte da gordura que certamente faz mal para a saúde, deixando apenas uns 5% do miolo que é delicioso e suculento. Ou seja, ele lê de tudo um pouco, das mais diversas referências e FILTRA o miolo suculento do conhecimento de seus autores. Se todas as pessoas fizessem isso, os seres humanos seriam bem mais sábios, pois aprenderiam que suas verdades não são absolutas e sempre, sempre é possível aprender com tudo e com todos. Se quiser ler o artigo completo do Luciano, deixo o link abaixo.

Sobre fascismo e a arte de comer picanha

Outra frase do artigo do Humberto Mariotti merece destaque, ela diz: “percepções padronizadas levam a comportamentos padronizados”. Infelizmente, o pensamento das pessoas que não se abrem para o novo, para o diferente, é padronizado. E por ser padronizado, leva a uma percepção padronizada. Aqui não posso deixar de citar o meu grande amigo Raul Seixas. Se havia uma coisa que ele não seguia era um pensamento padronizado, e desta forma, ele conseguiu uma percepção muito superior às pessoas de sua época. O Raul era um verdadeiro gênio, sua inteligência era absolutamente fora do comum e sua percepção era extremamente aguçada. Tanto que ele compunha músicas em plena época da ditadura condenando e criticando o sistema de uma forma tão sutil, que os burros da indústria musical não percebiam e deixavam ser lançadas.

Eu me espelho no Raul e em outros grandes nomes, não me fechando em mim mesmo, desta forma estou sempre aprendendo coisas novas todos os dias e crescendo em conhecimento e sabedoria. O Raul tem a fama de ser chamado de louco. Para mim isso é um tremendo elogio, quero ser chamado de louco pelas pessoas e pela sociedade, isso é um sinal que sou diferente, que não faço o que todo mundo faz, que não sou um medíocre. Lembra aquela frase da música “Maluco beleza”, do Raul? “Controlando a minha maluquez, misturada com minha lucidez”. Essa frase é extremamente profunda. Há uma enorme confusão entre maluquez e lucidez. Aquilo que é lucidez na mente do Raul e das pessoas que gostam de mergulhar fundo no conhecimento é uma maluquez na cabeça dos medíocres. E aquilo que é lucidez na cabeça dos medíocres não passa de maluquez na cabeça do Raul, é uma lucidez que ele fez questão de ignorar e mandar pro ralo do chuveiro.

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Outra trecho deste artigo também vale a pena ser discutido:

“Quando alguém nos diz alguma coisa, em vez de escutar até o fim logo começamos a comparar o que está sendo dito com ideias e referenciais que já temos. Esse processo mental, que chamo de automatismo concordo-discordo, quando levado a extremos é muito limitante”.

Aqui está o cerne do pensamento das pessoas engessadas. Que são aquelas que nunca se abrem para pensamentos diferentes, que tem uma convicção que chega a dar nojo. Elas são pessoas que praticamente só constroem muros em seus relacionamentos, são umas chatas e o tempo todo estão afastando os outros de sua companhia. Eu escrevi um texto bem bacana no blog “Para além do agora” falando sobre as pessoas engessadas. Nele eu aprofundei essa questão. Vale a pena conferir, o link está logo abaixo.

Pessoas engessadas

O último trecho deste artigo que quero abordar é esse aqui:

“É por isso que as pessoas nos cobram sempre opiniões fechadas. A dúvida e o talvez são circunstâncias assustadoras para nós. Em geral, assumimos uma posição preconceituosa diante dos indivíduos que nos dizem que ainda não têm opinião formada sobre um determinado assunto. Costumamos chamá-los de indecisos, porque estamos convencidos de que todos devem ter sempre posições imediatas e definitivas sobre tudo”.

A velha “opinião formada sobre tudo”, que tanto o Raul Seixas repetia na sua “Metamorfose ambulante”. Pessoas indecisas! Nesta sociedade em que vivemos, as pessoas indecisas são praticamente uma escória, não são bem vistas porque são “loucas”, como diz o Humberto: “Costumamos chamá-los de indecisos, porque estamos convencidos de que todos devem ter sempre posições imediatas e definitivas sobre tudo”, essas posições definitivas é esse pensamento padronizado, que não se abre ao novo, às novas possibilidades, ao aperfeiçoamento. Você não precisa ser assim! Questione-se! Será que é tão ruim ser um indeciso? Ter dúvidas? Ou será que é por que as pessoas que desenvolvem a arte da dúvida são as mesmas que fazem uma revolução? Já parou para pensar nisso? Você já viu uma revolução ser feita por alguém cheio de certezas? Por alguém cheio de verdades absolutas? Eu nunca vi e acho que provavelmente nunca verei, porque quem é cheio de verdades não precisa se importar com mais nada, elas já se bastam, são dominadas pelo EGO, o ego não leva ninguém a fazer uma revolução. Esta se faz na simplicidade, no desprendimento de si mesmo, no acolhimento, na abertura de mente, estes sim são candidatos para fazer uma revolução, como fez o mestre Raul com a música brasileira.

Se você leu até o final deve ter ficado curioso com os questionamentos que levantei não é? Então concluo deixando um belo presente para você, o artigo completo do Humberto Mariotti, que me inspirou a escrever este texto. Leia-o com bastante atenção, sem pressa, grifando ou sublinhando os pontos mais importntes. Esse é o tipo de artigo para nos fazer abrir a mente e ter uma mudança de postura. Boa viagem…

O automatismo concordo-discordo

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 Aquela velha opinião formada

3 comentários sobre “ Aquela velha opinião formada

  1. Luís disse:

    Assim sou eu, repleto de indecisões, incoerências, pensamento fervilhante, com gostos tão variados, que se fosse mostrar tudo à todos (e nem tem como, por mais palavras que se use nunca será igual à experiência do SENTIR) seria taxado de maluco mesmo, então, deixo vazar alguma coisa para os outros, uma pequena fração da loucura real, mas a multidão de insanos, fica preso aqui dentro. Infelizmente a sociedade nos enquadra com um força terrível e as formigas são implacáveis. Essa semana, enquanto comia uma sopa, me vi como um vetor, com vista para 2 esquinas do centro de Porto Alegre, observando as pessoas, se movimentando freneticamente, porque assim nós formigas nos movimentamos no centros, num automatismo horroroso, e vendo esse vai-e-vem, me enxerguei também nelas, fiquei observando e tomando a minha sopa, senti um aperto no peito, me lembrei de S.O.S de Raul, estava sem fones, encostei o celular no ouvido e fiquei próximo ao vidro, vendo aquilo tudo, viajando na minha epifania de intervalo de almoço…

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