Siga seu próprio caminho pra ser feliz de verdade

Por Isaias Costa

raul seixas desenho

Outro dia estava lendo as postagens sobre o Raul Seixas no facebook e encontrei um texto muito legal de sua autoria e resolvi publicá-lo aqui. Afinal, não sabemos até quando vai existir o facebook, então devemos registrar tudo aquilo que há de melhor e que vem desse baiano genial.

Abaixo está a transcrição desse belíssimo texto dele. Tenho certeza que você vai gostar de lê-lo…

Siga seu próprio caminho pra ser feliz de verdade – Por Raul Seixas

“Quando eu ensinava inglês há uns dez anos, fui expulso do instituto pois um dia, em vez de aula, pedi em plena classe que cada aluno fizesse ali na sala o que bem quisesse fazer. Pra minha alegria vi setenta alunos deuses sendo cada um o que eles eram: uma jornalista com batom vermelho-escuro pintou todas as paredes com desenhos tão bonitos, ela gostava de pintar; um garotinho tira uma gaita do bolso e começa a tocar enquanto um outro, em pé, recita pregando que é egoísta. Uma senhora tira a roupa e fica nua em pêlo em cima da carteira que eu me sento gritando que o clima da Bahia não comporta rouparias. Disse ela: ‘Alguém espalhou um boato que o corpo humano, que a natureza fez igual pra todos, era pecado e ninguém podia ver’. Um outro aluno era um padre respeitado, cheio de pano todo abotoado, levantou-se e foi ao quadro escrever sua confissão: ‘Eu, padre fulano, aqui confesso sem enganos que ninguém é pecador! De hoje em diante vou ser um mercenário procurando mundo afora o inventor-impostor que o pecado inventou’.

Eram setenta alunos, velhos, moços e crianças numa aula de inglês. Eu sentado observando que também me traía a fazer o que não queria pois o que eu queria mesmo era compor e cantar o que sentia. Rock and Roll e Twist and Shout. Nisto dona Angelina, que era bancária, me deu uma surpresa retada quando fez o que gostava, que era fabricar granada para soltar em São João, me apareceu o diretor. Vendo a sala louca o diretor abriu a boca, pois não entendeu aquela aula, e nos deu a maior lição expulsando eu e todos os ex-alunos do inútil. Hoje o diretor ainda tá lá no instituto dirigindo e dirigido.

O rapaz da gaita toca blues numa boate duma rua em New Orleans, enquanto a jornalista expões seus quadros surrealistas no Museu de Imagem e Tom. O padre achou num livro o autor do tal ‘pecado’ e agora escreve e é bem lido, o best-seller mais vendido. A sua tese explica que ‘pecado’ foi só um mal-entendido. Dona Angelina, ex-bancária da esquina, tá numa fábrica de minas do governo dos States e fabrica suas granadas hoje já atomizadas.

Eu, que vocês sabem, tô cantando o que penso sem patrão, sem dono ou rei vou fazendo o que eu quero porque tudo é da minha lei. Sou o que canto e minha voz não fica rouca. Já fui a mosca na sopa, metamorfose ambulante, transformo em ouro de tolo em ouro puro em um instante e Al Capone é meu ajudante. No meu signo de câncer eu tenho a cor do luar, sou também a luz das estrelas, óculos escuros guardam meus olhos seguros que os ladrões querem roubar, pensando tolamente que olhando com meus olhos vão ver o mesmo que eu.

A moral da história é que não é uma história, nem sequer tem moral, pois o novo e sempre velho pra quem vê com olho de velho, que o velho olha sem saber a explicação.”

“Ri melhor, quem ri mais alto”.

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