O cristianismo deveria se chamar crucianismo

Por Isaias Costa

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Lendo o excelente livro do místico oriental Osho chamado “Palavras de fogo – Reflexões sobre Jesus de Nazaré”, li um trecho que me fez lembrar de uma das mais críticas canções do mestre Raul Seixas, a música “Judas”, que até hoje ainda consegue causar muitas polêmicas, principalmente nos meios mais religiosos!

Farei uma breve reflexão a partir das suas palavras e linkando com a música do Raul. Leia abaixo…

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“Judas e Jesus eram amigos. Na verdade, sem Judas, Jesus não poderia existir. Algo na história fica faltando, algo muito especial está faltando. Pense em Jesus sem Judas. O cristianismo não seria possível. Não haveria nenhum registro de Jesus sem Judas. Em virtude da traição de Judas, Jesus foi crucificado; e como Jesus foi crucificado, o evento tocou no fundo do coração a humanidade.

O cristianismo nasce não devido a Cristo, mas devido à cruz. Assim, eu preferiria que o cristianismo fosse chamado de crucianismo. Ele não deveria ser relacionado a Cristo, mas à cruz.

Se você for às igrejas, verá que a cruz se eleva mais alto do que Jesus. Os bispos e os papas usam a cruz. O cristianismo nasceu da cruz. Mas, se você pensar isso, então quem é o autor da crucificação? – Judas, não Jesus.”

Osho

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É muito verdadeiro o que o Osho está dizendo com essas palavras. Judas é visto sempre como alguém perverso, alguém “do mal”, sendo que ele era sem sombra de dúvidas o apóstolo mais inteligente e preparado em termos de recursos entre os 12.

Ele era o mais estudado e o mais arguto também! Entendia como ninguém de finanças e economia e estava sempre lado a lado com Jesus lhe ajudando a fazer com que as peregrinações dos apóstolos se desse da melhor forma possível e com menos custos!

A verdade é que Jesus e Judas eram muito amigos. Não foi à toa que ele se suicidou não é mesmo? Ele jamais teria feito isso se não tivesse sido íntimo do mestre dos mestres Jesus!

Essas palavras do Osho lembram principalmente esse trecho da música: “Se eu não tivesse traído, morreria cercado de luz, e o mundo hoje então não teria a marca sagrada da cruz. E para provar que ele amava, pediu outro gesto de amor, pediu que o traísse com um beijo que minha boca então marcou…”.

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O evangelho apócrifo de Judas nos conta essa versão que a igreja católica abomina! Eu acho bem provável que o Raul tenha lido o evangelho de Judas “de cabo a rabo”, como se diz, e assim se inspirou para compor essa linda música!

Não se pode afirmar com 100% de certeza que essa é a “versão verdadeira”, porque existem mistérios infindáveis que circundam a pessoa de Jesus Cristo, mas eu simpatizo enormemente com essa versão de Judas!

Se Jesus não tivesse sido crucificado talvez hoje ele não passasse de mais um dos muitos profetas que nosso mundo já teve.

Eu acho muito interessante essa simbologia da morte! Ninguém pensa com profundidade sobre isso! O símbolo do cristianismo é um símbolo de morte terrível , dos mais cruéis que o ser humano da foi capaz de fazer, uma cruz.

Quando converso com amigos eu sempre brinco com essa simbologia. Eu digo assim: “Se Jesus tivesse morrido enforcado, o símbolo do cristianismo seria uma forca. Se ele tivesse morrido guilhotinado, o símbolo do cristianismo seria uma guilhotina ou se ele tivesse morrido eletrocutado, o símbolo do cristianismo seria uma cadeira elétrica, tudo isso pendurado no pescoço…”. Você já pensou que coisa mais macabra? Pois é! Bem vindo aos preceitos cristãos!

Talvez alguém leia esse texto pensando que estou de gozação, mas não estou! Escrevo isso pra que você se questione sobre as bases do cristianismo, que a meu ver, não tem absolutamente nada, repito, ABSOLUTAMENTE nada a ver com o mestre Jesus!

Quem lê meus textos sabe que eu tenha uma verdadeira fascinação pela sabedoria do Cristo. Eu digo o mesmo do grande Raul Seixas e digo o mesmo do místico Osho! Todos nós somos apaixonados pelo mestre Jesus, mas por quem ele foi de verdade, não o falso Jesus ensinado pelas religiões cristãs!

É preciso que tiremos da nossa cabeça e principalmente das nossas crenças mais arraigadas, essa ideia do sofrimento imenso que vem com a cruz de Cristo!

Quando vemos Jesus nas igrejas ele está com uma cara triste e cabisbaixa, como se sua morte na cruz tivesse sido um tormento sem medidas! É óbvio que ele sofreu muito e sentiu dores colossais, porém, no ápice da dor ele chegou a dizer: “Pai, perdoa-os, porque eles não sabem o que fazem…”.

Ele era tão amoroso e compassivo que mesmo nesse momento ele sabia olhar para os outros seres humanos! Como não amá-lo? Impossível!

As religiões se focam nessa dor de Jesus, sendo que ele era um poço de alegria, saúde e prosperidade! Ele ensinava a todos como ter uma vida com plenitude e beatitude, mas não nos focamos nesse lado. Por que? Para que continuemos sendo escravos dos padres e pastores e não alcancemos a verdadeira felicidade que provém da liberdade que Jesus tanto ensinava!

Jesus veio ao mundo para nos ensinar a sermos LIVRES e PLENOS. E esse caminho passa inevitavelmente por Judas! E no século XX acaba sendo resgatado pelo nosso baiano magricelo Raul Seixas e no século XXI por mim também!

Eu me sinto honrado em lhe ajudar a refletir sobre questões tão profundas nesse blog junto comigo e o Raulzito!

Concluo esse breve texto com essa linda música para animar a sua trilha sonora nesse dia!

“- Ei! Quem é você? Vamos responda?

Eu sou, eu sou JUDAS…”

 

O cristianismo deveria se chamar crucianismo

Agora é noite na sua existência

Por Isaias Costa

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As músicas do Raul Seixas são riquíssimas de ensinamentos e sabedoria. Uma das minhas favoritas é a “Século XXI”, cuja letra tem ensinamentos diversos e profundos. Já escrevi outro texto fazendo uma breve interpretação da sua letra completa, porém, nesse texto vou aprofundar a ideia contida em uma das suas estrofes, logo abaixo. Se quiser ler o outro texto segue o link.

Bem vindo ao século XXI

“Agora é noite na sua existência
Cuja a essência perdeu o lugar
Talvez esteja ai pelos cantos
Mas está escuro pra poder encontrar”

Essa noite na existência, levando para o contexto da música, tem a ver com a falta de sentido de uma pessoa que se deixou envolver completamente pela vida materialista, mas vai muito mais além!

Essa noite na existência pode até mesmo ser feita um paralelo com a expressão “noite escura da alma”, que foi enunciada e propagada a partir de São João da Cruz, que foi um dos grandes místicos que influenciou profundamente a obra artística do Raulzito.

São João da Cruz falava dessa noite escura da alma como sendo um período de imenso vazio e falta de sentido para a vida e que um dia todos nós iremos passar, mais cedo ou mais tarde.

Mas ao contrário do que muitos pensam, é maravilhoso passar por esse deserto pessoal, porque o que surge a partir dele é um DESPERTAR DE CONSCIÊNCIA e um desejo profundo por adentrar na espiritualidade, foi o que aconteceu com o Raul quando ele mergulhou fundo no mundo esotérico, ele estava cansado da vida puramente voltada para a matéria. Ele não podia conceber que a vida pudesse ser reduzida a tão pouco.

É por tudo isso que ele diz na sua música “Ouro de tolo” isso aqui: “Porque foi tão fácil conseguir e agora eu lhe pergunto ‘E daí?’, eu tenho uma opção de coisas grandes pra conquistar e eu não posso ficar aí parado…”.

Essas coisas grandes eram as conquistas do espírito, a elevação espiritual. Não é incrível?

Depois ele diz que a essência perdeu o lugar, talvez esteja ali pelos cantos, mas tá escuro pra poder encontrar. Essa essência é verdadeiramente aquilo que a ALMA pede. Os sonhos e anseios mais profundos. Todas as pessoas que se deixam afogar pelo “monstro sist” e se tornam extremamente materialistas acabam se afastando das suas essências e sofrem imensamente com isso, porque não conseguem ter uma vida plena.

Elas correm, correm, correm, e não saem do lugar, como ratos dentro das suas casinhas domésticas.

Você quer se engodar nessas garras do “monstro sist”? Estou convidando você a se libertar dele com essa breve reflexão. Seja um buscador da verdade, da verdade que mora dentro da sua alma…

Esse “aí pelos cantos” que ele coloca na música pode ter diversos sentidos, mas eu acredito que o Raul quis dizer sobre as nossas SOMBRAS INTERNAS e sobre o nosso INCONSCIENTE.

Muitos não sabem, mas o Raul era um profundo estudioso de Psicologia, e não tenho a menor dúvida que ele leu alguma coisa do Carl Jung, pois seus escritos e teorias tem uma relação muito grande com o esoterismo e com as culturas orientais, coisas que o Raul amava e devorava os livros.

Ele entendia bem estas teorias psicanalíticas do consciente, subconsciente e inconsciente, tão aprofundadas pelo mestre Jung.

Ele diz que está escuro pra poder encontrar a essência da alma, porque ela está obscurecida pelas sombras do inconsciente. As pessoas materialistas querem saber de tudo, menos conhecer a si mesmas, por isso elas criam crostas e mais crostas de sombras, que as afastam da essência.

Elas fogem e ele faz essa comparação com o “deixar pelos cantos”. A gente coloca de lado ou pelos cantos aquilo que não valoriza, não é mesmo? Então ele está dizendo isso, que as pessoas se afastam da essência por medo, condicionamentos e por engessamento da vida.

Daí acabamos voltando para a noite escura da alma, porque a nossa alma uma hora acaba “gritando” para que possamos revelá-la a nós mesmos e ao mundo!

Ele fala sobre tudo isso e muito mais apenas nessa estrofe da música! Percebe como o Raul era um cara extremamente sábio? Somente estudando muito a sua obra é possível compreender todas essas lindas mensagens que ele transmitia.

Espero que tenha gostado dessa breve reflexão! Viva Raul!

Agora é noite na sua existência

Jesus Cristo e Raul Seixas transmitiram a mesma mensagem

Por Isaias Costa

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Estudando por anos a fio os pensamentos do grande Raul Seixas, mais chego a conclusão de que ele tinha uma inteligência absurdamente acima da média.

Lendo também as palavras do místico oriental Osho, percebo que o Raul era tão inteligente e sábio, que se ele tivesse seguido a vida sem os vícios em drogas e bebidas, provavelmente teria se tornado um iluminado.

Você acha que eu estou exagerando? Não estou! Leia essas palavras do Osho e você vai concluir isso…

Observe seu entusiasmo pela vida…
Muito poucas pessoas percebem que estão entediadas, mas elas estão absolutamente entediadas.
Todos sabem e percebem, exceto elas mesmas.
Saber que se está entediado é um grande começo.
O homem é o único animal que sente tédio, mas isso é um grande privilégio.
Você já viu algum búfalo entediado, um burro entediado?
Eles não ficam entediados!
Tédio significa simplesmente que a sua maneira de viver está errada – consequentemente isso pode se tornar um grande evento – e alguma coisa precisa ser feita, alguma transformação se faz necessária.
Por que nos sentimos entediados?
Sentimos muito tédio porque temos vivido em padrões mortos, padrões que nos foram dados pelos outros.
Renuncie a esses padrões! Comece a viver por si mesmo.
Nossas verdadeiras vidas permanecem reprimidas e começamos a simular uma vida irreal.
E é essa vida irreal que cria o tédio.
Se você está fazendo aquilo a que estava destinado, você nunca ficará entediado.
Não é uma questão de dinheiro, poder e prestígio: a questão é o que você, intrinsecamente, deseja fazer.
Faça sem levar em consideração os resultados, e o seu tédio desaparecerá.
Pare de seguir as ideia dos outros.
A humanidade inteira está entediada, porque a pessoa que queria ter sido um místico é um matemático, a pessoa que queria ter sido um matemático é um político, a pessoa que queria ter sido um poeta é um homem de negócios.
Todos estão em algum outro lugar.
E como sentir ânimo?
O ânimo só flui quando você está fazendo aquilo que deseja fazer, seja lá o que for.
Aceite a si mesmo. Rejeite tudo o mais e aceite a si mesmo.
Mas não interprete isso a sua própria maneira.
Rejeite tudo o que foi imposto a você. Aceite o seu ser mais íntimo, e assim você não sentirá que está deixando de viver algo.
No momento em que você aceita a si mesmo, incondicionalmente, de repente, uma explosão de felicidade acontece.
Sua energia começa a fluir e a vida se torna um verdadeiro êxtase.
Ainda dá tempo!
Saia da prisão que você tem vivido até agora. Isso requer apenas um pouco de coragem.
E não há nada a perder. Você pode perder apenas suas correntes, você pode perder somente seu tédio, pode perder essa constante sensação de alguma coisa faltando.
Você deve está vivendo uma vida irresponsável, cumprindo com todo o tipo de responsabilidades que os outros esperam que você cumpra.
Você está perdendo o entusiasmo pela vida. O que mais você precisa para sair da prisão?
Pule fora disso, não olhe pra trás.
Eles dizem: pense duas vezes antes de pular.
Eu digo: pule primeiro e depois pense o quanto você quiser.

Fonte: O tédio é um grande começo

Percebe? Quando alguém sente tédio, está a um passo de atingir a iluminação, porém, quase todos voltam atrás por medo, por crenças, porque se agarram ao bendito EGO etc.

Pode ser até que o Raul tenha se viciado tanto em álcool e drogas como uma forma inconsciente de apressar a sua morte. Ele se achava tão estranho num mundo de normóticos que sua distração era beber até ficar desorientado e poder ter uma vida um pouco mais “comum”

Por que o Raul Seixas bebia tanto?

Com esse pensamento, agora você pode entender melhor o que ele quis dizer com essa célebre frase:

“Ninguém morre, as pessoas despertam do sonho da vida.”

Frase esta que ele, de certa forma, usa como gancho na sua linda música “Nuit”.

“E quão longa é a noite. A noite eterna do tempo. Se comparado ao curto sonho da vida”

Esses pensamentos malucos dele foram inspirados no grande filósofo Schopenhauer, outro gênio da humanidade que foi extremamente mal compreendido!

O Raul sabia bem como era aqui na Terra e queria mesmo era encontrar o moço do disco voador depois da sua morte! Será que encontrou? hehehe

Não fique achando que esse é um texto psicodélico para desprezar a vida. Nada disso! Muito pelo contrário. Se sentimos tédio, é aí que a nossa vida começa, porque tudo que faremos daí pra frente pode e certamente VIRÁ DO NOSSO CORAÇÃO.

Foi assim com o Raul e desta forma ele se tornou um mito. Seu nome sempre será lembrado como alguém que revolucionou a música e toda uma geração!

Cada texto que escrevo dissecando seus pensamentos é mais uma forma de fazê-lo se eternizar. E o mesmo pode acontecer comigo. Vou partir desse mundo feliz por ter sido inteligente o suficiente para conseguir compreender bem a mente de um homem tão revolucionário quanto o Raul Seixas!

Todos nós temos dentro de nós um potencial incrível que pode ser explorado muito mais do que imaginamos ser possível. Mas sentimos medo, e por conta desse medo, nos deixamos engolir pelo “Monstro Sist”.

Ele está o tempo todo “doido para transar com você”. O que fazer para não ser engolido?

Tenha CORAGEM. Siga o seu coração! Coragem significa “viver pelo coração”!

Siga o seu próprio caminho pra ser feliz de verdade.”

Enquanto você me critica eu tô no meu caminho.”

Eu devia estar sorrindo e orgulhoso por ter finalmente vencido na vida, mas eu acho isso uma grande piada e um tanto quanto perigosa…”

Do materialismo ao espiritualismo é uma simples questão de esperar esgotarem-se os limites do primeiro.”

Hoje eu te chamo de careta e você me chama vagabundo

Pra ser feliz e olhar as coisas como elas são. Sem permitir da gente uma falsa conclusão. Seguir somente a voz do seu coração

Eu sou a luz das estrelas, eu sou a cor do luar, eu sou as coisas da vida…”

Veja só!

Tudo o que o Raul sempre quis dizer a vida inteira em suas músicas foi: SEJA VOCÊ!

Sendo você, então você conquistará a LIBERDADE.

“Conhecereis a verdade e verdade vos libertará”

Pois é! Essas são as palavras do mestre dos mestres Jesus Cristo!

O Raul sempre dizia: “A mensagem de Jesus Cristo está presente em todas as minhas músicas”.

A mensagem do Raul é a mesma do mestre Jesus, só que disfarçada com humor, com melodias incríveis!

É por isso que ele diz na sua célebre música “Maluco Beleza”.

“Vou ficar, ficar com certeza maluco beleza”. Vou ficar quer dizer isso, o verdadeiro e maior maluco beleza foi Jesus Cristo.

Tem mais uma coisa. O Raul poderia ter se iluminado se tivesse buscado a MEDITAÇÃO, a quietude do ser. Mas não conseguiu! Se ele tivesse seguido por esse caminho, como fez Jesus Cristo, ele seria mais um dos iluminados do planeta Terra…

Interessante não é? Jesus Cristo veio à Terra para nos ensinar o caminho da AUTOSALVAÇÃO.

Raul veio para nos ensinar a SOCIEDADE ALTERNATIVA: “Faz o eu tu queres, há de ser tudo da lei”.

E ele até dizia que você pode achar que não está na sociedade alternativa, mas ela sempre esteve dentro de você!

Ela está porque é a LIBERDADE, e você pode ser livre, mas para ser completamente livre, você terá que passar pelo tédio.

Eu passei por esse tédio e só depois dele que consegui escrever esse texto maluco e genial ao mesmo tempo!

O que acha de pensar com carinho nessas palavras e perder o medo de ser livre?

Ao fazer essa transformação, acredite! Você sem sombra de dúvidas vai seguir o seu próprio caminho pra ser feliz de verdade…

 

Jesus Cristo e Raul Seixas transmitiram a mesma mensagem

A Pedra do Gênesis está bem aqui e agora

Por Isaias Costa

Neste texto, farei uma breve reflexão sobre uma das músicas mais geniais do Raul Seixas. A sua mensagem é transformadora na nossa vida se bem acolhida no coração. Trata-se da música “A Pedra do Gênesis”, do álbum lançado em 1988 que recebe o mesmo título. A letra completa com o vídeo estão logo abaixo:

“No fundo do oceano existe um baú
Que guarda o segredo almejado desde a aurora dos tempos
Por gênios, sábios, alquimistas e conquistadores
Eu conheci esse baú num estranho ritual reservado a poucos
Hoje eu posso enfim revelar que essa busca de séculos foi em vão”

A Pedra do Gênesis, a Pedra do Gênesis
Está bem aqui e agora, a Pedra do Gênesis
Você pode tocar

É a escada do seu velho sonho
Que vai dar sempre onde começou
É a chave do maior poder
Que não vale um chiclete
Que alguém mascou, mascou

A Pedra do Gênesis, a Pedra do Gênesis
Está bem aqui e agora, a Pedra do Gênesis
Você pode tocar

É a Pedra de cada dia
Que está no chão de qualquer lugar
Aonde o mendigo pisa
E o santo cospe quando passa nessa pedra

A Pedra do Gênesis, a Pedra do Gênesis
Está bem aqui e agora, a Pedra do Gênesis
Você pode tocar

É Deus traçando linhas tortas
É mais um que nasce e começa a morrer
Jogando jogo da velha, o jogo da guerra
Sem poder vencer, sem vencer

A Pedra do Gênesis, a Pedra do Gênesis
Está bem aqui e agora, a Pedra do Gênesis
Você pode tocar, a Pedra do Gênesis

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A principal mensagem que esta música quer transmitir está logo nas primeiras frases. Vamos lá!

Ele fala de uma maneira meio enigmática justamente para esta música ficar com um tom mais místico e instigante. Se você vir a capa deste álbum, vai perceber que o Raul nesse tempo parece que estava numa “vibe” mais mística, com óculos escuros, o cabelo lambido, uma capa preta com o símbolo da Sociedade Alternativa e um livro sagrado nas mãos. Veja só a foto da capa como é legal!

Raul

Inclusive tem outras músicas deste mesmo álbum com um ar mais triste e misterioso, como a “Cavalos calados”, “Check-up” e “Areia da ampulheta. Parece que a partir desse tempo o Raul já pressentia que sua morte estava de fato se aproximando.

O mais interessante nessas frases iniciais é quando ele fala desta busca de séculos. O Raul tinha um imenso nível de consciência e ele sabia que todos nós estamos neste planeta num processo evolutivo constante, por vidas e vidas.

Esses séculos são as suas vidas passadas até a atual encarnação como Raul Seixas, em suas vidas passadas ele buscou o segredo da vida e ainda não tinha descoberto e foi em vão tanta procura.

A partir daí vem a maravilha que é o refrão. A mensagem do refrão é simplesmente a maneira que eu tenho procurado viver minha vida há muitos anos. O AQUI e AGORA. Para o Raul e para os grandes seres iluminados que já habitaram e ainda habitam o planeta Terra, todos nos dizem que esse é o caminho perfeito, viver o aqui e agora em toda a sua plenitude.

A Pedra do Gênesis se chama AQUI e AGORA, e quando você de fato entende e acima de tudo, vivencia isso, você se torna um ser ILUMINADO.

Quem consegue viver o momento presente em plenitude? Não é fácil, a maior parte das pessoas se projeta no futuro miragem ou se prende ao passado que não passa de memória.

O Raul compreendeu que a vida só acontece no aqui e agora e assim se tornou um sábio, um mito e seu nome será lembrado pelas próximas gerações. Estou aqui com esse propósito de deixar seu nome gravado na História. Um gênio como nunca se viu na música brasileira.

Você pode tocar nesta pedra quer dizer isso: todos nós podemos viver o hoje, não é algo para seres especiais, é algo simples, todos nós podemos tocá-la…

Na estrofe seguinte ela diz o quanto essa verdade é simples, não vale um chiclete que alguém mascou e toda busca vai dar sempre no mesmo final, a simplicidade do momento presente.

A estrofe seguinte tem um detalhe magnífico que vale a pena ser destacado, ele diz que o mendigo pisa e o santo cospe nessa pedra. Aqui, ele está falando sobre os EXTREMOS. O mendigo representa as pessoas que não cresceram em sabedoria e conhecimento, e devido à ignorância não entendem a sabedoria de viver o hoje. O mendigo é o extremo pelo lado da ignorância. Já o santo representa aquela pessoa que por arrogância e prepotência acha que já descobriu o segredo da vida, mas que na realidade não passa de uma escrava da própria vaidade espiritual. Esse é o extremo pelo lado da vaidade. Os dois caminhos nos afastam da Pedra do Gênesis…

A última estrofe pode ter diversas interpretações, mas a que gosto mais tem a ver com um conceito bem difundido pelo Budismo chamado “Samsara”. Esse termo se refere ao processo de reercarnação dos seres humanos em busca da luz, ou seja, as muitas vidas até alcançar a iluminação. O “Samsara” é chamado de “Jogo da velha” pelo Raul. Ou seja, alguém nasce e começa a morrer representa esse processo evolutivo das nossas almas que reencarnam sucessivas vezes até alcançar o nirvana, a iluminação, ou o “Samadhi”, como dizem os budistas.

Bem interessante a letra dessa música não acha? Eu levei muitos anos para conseguir compreendê-la um pouquinho mais! Ahh! Ela tem mensagens que eu não disse e que inclusive ainda não consegui compreender devido à minha limitadíssima compreensão, mas acho que com esse texto deu para clarear um pouco!

Se você quiser dar a sua opinião ou falar algo que você imagina que possa ser uma interpretação de parte dessa música, fique à vontade para comentar…

Nunca esqueçamos…

“A Pedra do Gênesis está bem aqui e agora…”

A Pedra do Gênesis está bem aqui e agora

Viver de modo inteligente

Por Isaias Costa

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Recentemente eu li um pequeno texto do místico oriental Osho e me fez refletir muito…

“Se você está fazendo algo apenas como um dever – você não o ama e você está fazendo apenas como um dever – mais cedo ou mais tarde você será apanhado. E você estará em uma dificuldade sobre como se livrar disso.

Apenas observe nas 24 horas do dia: quantas coisas você está fazendo das quais não deriva nenhum prazer? Que você não cresce a partir delas, e de fato, você quer livrar-se delas? Se você está fazendo muitas coisas na sua vida das quais você realmente quer se livrar, você está vivendo de modo não inteligente.

Uma pessoa inteligente fará a vida dela de tal modo que terá uma poesia de espontaneidade, de amor, de alegria. É a sua vida, e se você não for agradável o suficiente para si mesmo, quem irá ser agradável para você?

Se você está perdendo isto, a responsabilidade não é de ninguém mais. Eu ensino você a ser responsável em relação a si mesmo – esta é a sua primeira responsabilidade.

Tudo mais vem a seguir. Tudo mais, inclusive Deus vem a seguir. Porque ele pode vir somente quando você é. Você é o verdadeiro centro do seu mundo, da sua existência.

Então, seja inteligente. Traga a qualidade da inteligência. E quanto mais inteligente você se tornar, mais capaz você será de trazer mais inteligência para a sua vida.

Cada único momento pode se tornar tão luminoso com inteligência… então, não há necessidade de uma religião, não necessita meditar, não necessita ir a igreja, não necessita ir para algum templo, não necessita nada extra.

A vida é intrinsicamente inteligente. Apenas viva totalmente, harmoniosamente, em consciência, e tudo seguirá belamente. Uma vida de celebração segue a luminosidade da inteligência”.

Osho

Esse texto vem nos mostrar o que é viver de modo inteligente e concordo plenamente com seu posicionamento e visão. Na realidade vivi na pele diversas vezes o que ele colocou nesse texto e quero compartilhar uma destas experiências.

Eu já participei por alguns anos de grupos de jovens da igreja católica, já fui sim um cara religioso, mas sempre quis viver de modo inteligente, então com o passar do tempo e das experiências fui percebendo que estava restringindo as minhas possibilidades, não estava crescendo como gostaria. Em vez de ter uma fé mais sólida e firme, estava acontecendo exatamente o contrário, estava em um lugar cheio de pessoas que não compartilhavam das mesmas ideias que eu e, pior, ainda condenavam meus pensamentos e posturas.

Eu convivia com muitos jovens vaidosos espiritualmente, ou seja, que se achavam melhores do que as outras pessoas por estarem engajados na igreja. Com o passar do tempo, minha convivência com eles foi se tornando insuportável, aconteceu comigo o que o Osho descreveu em seu texto, participava do grupo de jovens como uma espécie de dever, mas tudo que eu queria era não estar ali. E foi o que acabou acontecendo. Saí para nunca mais voltar. Eu falei um pouco sobre o que penso em relação a vaidade espiritual em um texto do blog “Para além do agora”. Se quiser ler, deixo o link abaixo.

A pior de todas as vaidades

Depois que tomei esta decisão, a minha vida deu um enorme salto de qualidade, passei a escrever mais e de uma forma muito mais impactante que antes. Passei a viver de fato tudo aquilo que estava escrevendo no meu dia a dia, coisa que não fazia antes, e passei a ver o mundo e as pessoas com um olhar mais voltado para a empatia e a compaixão. E devo boa parte desta minha mudança aos belíssimos ensinamentos do mestre dos mestres Jesus Cristo e a alguns mestres budistas como Dalai Lama, Thich Nath Hahn, Karmapa entre outros. Hoje posso dizer que sou outra pessoa, muito mais feliz, pleno e realizado. Não sigo uma religião, mas aprendo um pouco com todas elas, e acho todas as religiões maravilhosas, há muito que se aprender com todas elas, basta ter abertura de mente e de coração para aprender com elas.

Mas afinal? O que tudo isso tem a ver com o nossos amigo Raulzito? Só tudo! O Raul era um cara bastante espiritualizado. Ele lia textos de grandes líderes religiosos, santos, mestres e claro, a bíblia sagrada.

Em suas músicas ele revela muitas mensagens religiosas, como “Debaixo do sol não há nada novo, não seja tolo, meu rapaz…”, na música Rock and Roll. Ou “Eu conheço bem a fonte que desce daquele monte, ainda que seja de noite. Nessa fonte tá escondida o segredo desta vida, ainda que seja de noite…”, na música Água viva, em que ele compôs juntamente com o Paulo Coelho a partir de escritos do São João da Cruz. Ou mesmo “Eu vi Cristo ser crucificado, o amor nascer e ser assassinado, eu vi as bruxas pegando fogo pra pagarem seus pecados, eu vi, eu vi Moisés cruzar o mar vermelho…”, na música “Eu nasci há dez mil anos atrás”, com mensagens da bíblia sagrada.

O Raul era e sempre será um cara extremamente inteligente. Ele vivia de forma inteligente, vivia sobre a sua própria, a lei de Thelema da Sociedade Alternativa, a lei do Aleister Crowley: “Faz o que tu queres, há de ser tudo da lei”.

Em minha opinião, o Raul só não viveu de maneira ainda mais inteligente, porque se deixou dominar pelos vícios do álcool e do fumo, e a partir daí não se tornou mais dono de si mesmo, mas refém destes vícios, porém, nada, nada disso retirou sua genialidade nem sua vida inteligente, tanto é que ele se tornou o mito que vemos até hoje.

Faça como diz o texto do Osho! A responsabilidade de viver de modo inteligente é único e exclusivamnte sua. Você é o dono da sua vida! Você é o dono da sua própria história! Só você tem o poder de fazer a sua vida ser importante e inteligente. Tenha coragem! “Tenha fé em Deus, tenha fé na vida”. Tente! Você pode! Você vai conseguir!

Viver de modo inteligente

Aprendendo a duvidar com Raul Seixas e Ferreira Gullar

Por Isaias Costa

Rodin le penseur

O Raul Seixas era um questionador nato. Duvidava de tudo, raramente tinha uma opinião formada inflexível e engessada sobre alguma coisa. Uma palavra que estava presente o tempo inteiro no seu vocabulário e passei a incluir no meu é a palavra TALVEZ. O Raul nunca dava certeza absoluta sobre nada. Até mesmo coisas que para o senso comum são verdades absolutas, para o universo de Raul Seixas, não eram. Eu adoro uma das suas frases da música “Faça Fuce Force” que diz assim: Que o mel é doce, é coisa de que me nego a afirmar, mas que parece doce eu afirmo plenamente. Essa frase é incrível e mostra o quanto o pensamento do Raul estava acima da média.

O que é o doce? Para nós o doce é a sensação boa que temos quando comemos algo que chamamos de doce. Tudo aquilo que possui glicose e dá a sensação gustativa do que chamamos de “doce”. Aqui está a grande questão. “Doce”, são apenas 4 letrinhas: d-o-c-e. Que quando pronunciadas, nos remetem a sensação gustativa do doce. Mas uma pessoa, se ela quiser, pode simplesmente dizer: “Não! Para mim, isso não é doce, é salgado”. Algum problema com isso? Eu não vejo problema nenhum. Sabe qual é o grande problema com isso? Quem ousa fazer isso ou dizer isso é tachado pelas pessoas como louco, como um desvairado, como alguém que só quer ser “do contra”. Por quê? Eu não tenho direito de dizer a mim mesmo que algo é salgado em vez de doce? Pois é! Era isso que o Raul queria levar as pessoas a pensarem através desta música. Estamos numa sociedade que rotula tudo, que define tudo, que diz que tudo tem que ser de um único jeito e ponto. Eu não penso desta forma e quero lhe levar a refletir sobre isso hoje.

O que nos faz começar a crescer nisso é se questionar, fazer mais perguntas a si mesmo. Por que isso? Por que aquilo? Assim, vamos abrindo espaço na nossa mente para que criemos nossas próprias opiniões, fora da caixinha, como diria o empresário Flávio Augusto. O Raul era um cara muito flexível, sabia ouvir opiniões diferentes das dele sem ficar condenando, sem ficar apontando o dedo na cara das pessoas dizendo: “Você está errado!”. Não! Ele era extremamente respeitoso quanto a isso. Aqui não posso deixar de falar das pessoas religiosas inflexíveis. Eu acho isso uma verdadeira doença. Pode me condenar se quiser, eu não me importo com isso. Existem muitas pessoas religiosas que querem provar por A + B que só a sua religião pode levar até Deus, que é preciso se converter. Ou que “só Jesus salva”. Eu acho isso uma tremenda hipocrisia. E as sociedades que não são cristãs? Existem muitos países que só ouvem falar de Jesus Cristo por ele ser cultuado no Ocidente, só por isso. Mas que possuem uma cultura religiosa totalmente desvinculada do cristianismo. Todas essas pessoas vão “queimar no mármore do inferno” porque não aceitaram Jesus como “único e suficiente salvador”? Pode ter certeza que não! Elas só vão queimar no inferno das mentes das pessoas inflexíveis.

Eu admiro profundamente o mestre Dalai Lama porque, apesar de ele ser um homem religioso, é muito flexível e sempre, SEMPRE pauta seus discursos na ÉTICA e na COMPAIXÃO. Uma vez li umas palavras suas que se encaixam perfeitamente aqui.

Às vezes sou tão flexível que sou acusado de não ter coerência política. Alguém pode vir a mim e apresentar uma ideia. E eu vejo a razão para aquilo que a pessoa diz e concordo com ela, comentando que é ótimo… Mas então aparece outra pessoa com um ponto de vista contrário, eu também vejo a razão para o que está dizendo e concordo também com ela. Às vezes sou criticado por isso e preciso me relembrar que estamos comprometidos com tal e tal conduta e que por enquanto devemos nos ater a esse lado”.

Se você prestar atenção! O Dalai Lama está dizendo estas palavras para falar sobre seus princípios religiosos. Ele é acusado por muitas pessoas como sendo alguém incoerente, que prega uma coisa e vive outra, ou que não vive o Budismo verdadeiramente etc. Será mesmo? Para mim, quem faz tais questionamentos não entende profundamente e muito provavelmente se sente incomodado com sua flexibilidade. E você? Também se sente incomodado com a flexibilidade do Dalai Lama? Eu não! Eu amo esse grande mestre, e ele tem me ajudado muito a crescer no campo da ÉTICA, uma palavra riquíssima que não cabe num texto como esse, por ser extremamente abrangente.

Que você reflita um pouco sobre essas questões tão importantes e aprenda a duvidar, a ter uma opinião só sua, totalmente original, aprenda a ser mais flexível, a respeitar as opiniões dos outros, a não achar que suas verdades são universais… O Raul sempre ensinava tudo isso e muito mais em suas músicas, mas poucos são os que acolhem sua mensagem libertadora.

Para continuar refletindo e se aprofundando neste tema, compartilho um texto genial do grande escritor e poeta Ferreira Gullar.

O benefício da dúvida- Por Ferreira Gullar

 Difícil é lidar com donos da verdade. Não há dúvida de que todos nós nos apoiamos em algumas certezas e temos opinião formada sobre determinados assuntos; é inevitável e necessário. Se somos, como creio que somos, seres culturais, vivemos num mundo que construímos a partir de nossas experiências e conhecimentos. Há aqueles que não chegam a formular claramente para si o que conhecem e sabem, mas há outros que, pelo contrário, têm opiniões formadas sobre tudo ou quase tudo. Até aí nada de mais; o problema é quando o cara se convence de que suas opiniões são as únicas verdadeiras e, portanto, incontestáveis. Se ele se defronta com outro imbuído da mesma certeza, arma-se um barraco.

De qualquer maneira, se se trata de um indivíduo qualquer que se julga dono da verdade, a coisa não vai além de algumas discussões acaloradas, que podem até chegar a ofensas pessoais. O problema se agrava quando o dono da verdade tem lábia, carisma e se considera salvador da pátria. Dependendo das circunstâncias, ele pode empolgar milhões de pessoas e se tornar, vamos dizer, um “fuhrer”.

As pessoas necessitam de verdades e, se surge alguém dizendo as verdades que elas querem ouvir, adotam-no como líder ou profeta e passam a pensar e agir conforme o que ele diga. Hitler foi um exemplo quase inacreditável de um líder carismático que levou uma nação inteira ao estado de hipnose e seus asseclas à prática de crimes estarrecedores.

A loucura torna-se lógica quando a verdade torna-se indiscutível. Foi o que ocorreu também durante a Inquisição: para salvar a alma do desgraçado, os sacerdotes exigiam que ele admitisse estar possuído pelo diabo; se não admitia, era torturado para confessar e, se confessava, era queimado na fogueira, pois só assim sua alma seria salva. Tudo muito lógico. E os inquisidores, donos da verdade, não duvidavam um só momento de que agiam conforme a vontade de Deus e faziam o bem ao torturar e matar.

Foi também em nome do bem — desta vez não do bem espiritual, mas do bem social — que os fanáticos seguidores de Pol Pot levaram à morte milhões de seus irmãos. Os comunistas do Khmer Vermelho haviam aprendido marxismo em Paris não sei com que professor que lhes ensinara o caminho para salvar o país: transferir a maior parte da população urbana para o campo. Detentores de tal verdade, ocuparam militarmente as cidades e obrigaram os moradores de determinados bairros a deixarem imediatamente suas casas e rumarem para o interior do país. Quem não obedeceu foi executado e os que obedeceram, ao chegarem ao campo, não tinham casa onde morar nem o que comer e, assim, morreram de inanição. Enquanto isso, Pol Pot e seus seguidores vibravam cheios de certeza revolucionária.

É inconcebível o que os homens podem fazer levados por uma convicção e, das convicções humanas, como se sabe, a mais poderosa é a fé em Deus, fale ele pela boca de Cristo, de Buda ou de Muhammad. Porque vivemos num mundo inventado por nós, vejo Deus como a mais extraordinária de nossas invenções. Sei, porém, que, para os que creem na sua existência, ele foi quem criou a tudo e a todos, estando fora de discussão tanto a sua existência quanto a sua infinita bondade e sapiência.

A convicção na existência de Deus foi a base sobre a qual se construiu a comunidade humana desde seus primórdios, a inspiração dos sentimentos e valores sem os quais a civilização teria sido inviável. Em todas as religiões, Deus significa amor, justiça, fraternidade, igualdade e salvação. Não obstante, pode o amor a Deus, a fé na sua palavra, como já se viu, nos empurrar para a intolerância e para o ódio.

Não é fácil crer fervorosamente numa religião e, ao mesmo tempo, ser tolerante com as demais. As circunstâncias históricas e sociais podem possibilitar o convívio entre pessoas de crenças diferentes, mas, numa situação como do Oriente Médio hoje, é difícil manter esse equilíbrio. Ali, para grande parte da população, o conflito político e militar ganhou o aspecto de uma guerra religiosa e, assim, para eles, o seu inimigo é também inimigo de seu Deus e a sua luta contra ele, sagrada. Não é justo dizer que todos pensam assim, mas essa visão inabalável pode ser facilmente manipulada com objetivos políticos.

Isso ajuda a entender por que algumas caricaturas — publicadas inicialmente num jornal dinamarquês e republicadas em outros jornais europeus — provocaram a fúria de milhares de muçulmanos que chegaram a pedir a cabeça do caricaturista. Se da parte dos manifestantes houve uma reação exagerada — que não aceita desculpas e toma a irreflexão de alguns jornalistas como a hostilidade de povos e governos europeus contra o islã—, da parte dos jornais e do caricaturista houve certa imprudência, tomada como insulto à crença de milhões de pessoas.

Mas não cansamos de nos espantar com a reação, às vezes sem limites, a que as pessoas são levadas por suas convicções. E isso me faz achar que um pouco de dúvida não faz mal a ninguém. Aos messias e seus seguidores, prefiro os homens tolerantes, para quem as verdades são provisórias, fruto mais do consenso que de certezas inquestionáveis.

Site: O benefício da dúvida

 * Texto complementar

A arte da dúvida

Aprendendo a duvidar com Raul Seixas e Ferreira Gullar

Escreva o seu próprio livro

Por Isaias Costa

dicas-para-escrever-um-livroEm minha opinião, a mensagem principal que o grande Raul Seixas sempre quis transmitir a todos nós na maior parte das suas músicas é o desejo por LIBERDADE, por “seguir o seu próprio caminho, pra ser feliz de verdade…”, como diria o próprio Raul.

Farei uma breve reflexão a partir de uma de suas músicas pouco conhecida chamada “Todo mundo explica”, cuja letra completa está logo abaixo:

Todo Mundo Explica – Raul Seixas

Não me pergunte: por que?
Quem? Como? Onde? Qual? Quando? O Que?
Deus, Buda, O tudo, O nada, O ocaso,
Como o cosmonauta busca o nado, o nada
Seja lá o que for, já é

Não me obrigue a comer
O seu escreveu não leu
Papai mordeu a cabeça
Do Dr. Sugismundo
Porque sem querer cantou de galo que
Cada cabeça é um mundo Gismundo
Antes de ler o livro que o guru lhe deu
Você tem que escrever o seu

Chega um ponto que eu sinto que eu pressinto
Lá dentro, não do corpo, mas lá dentro-fora
No coração e no sol, no meu peito eu sinto
Na estrela, na testa, eu farejo em todo o universo
Que eu to vivo
Que eu to vivo
Que eu to vivo, vivo, vivo como uma rocha
E eu não pergunto
Porque já sei que a vida não é uma resposta
E se eu aconteço aqui se deve ao fato de eu
simplesmente ser
Se deve ao fato de eu simplesmente

Mas todo mundo explica
Explica Freud, o padre explica, Krishnamurti tá
vendendo
A explicação na livraria, que lhe faz a prestação
Que tem Platão que explica, que explica tudo tão bem vai lá que
Todo mundo explica
o protestante, o auto-falante, o zen-budismo,
Brahma, Skol
Capitalismo oculta um cofre de fá, fé, fi, finalismo
Hare Krishna, e dando a dica enquanto aquele
papagaio
Curupaca e implica
Com o carimbo positivo da ciência que aprova
e classifica

O que é que a ciência tem?
Tem lápis de calcular
Que é mais que a ciência tem?
Borracha pra depois apagar
Você já foi ao espelho, nego?
Não?
Então vá!

*******

Essa música é bem engraçada e extremamente crítica. O Raul nesta música está falando de uma maneira bem filosófica sobre a verdade. O que é a verdade? Perguntinha difícil essa, não?

De antemão já lhe digo. Não sei.

A verdade é e sempre será algo absolutamente individual. Para cada um de nós a verdade se apresenta de uma forma, e assim como a vida e o universo, ela é completamente mutável. A verdade de uma criança é completamente diferente da verdade de um jovem, um adulto ou um velho.

Quando eu era criança, tinha sonhos de criança, pensava como criança, tinha um coração de criança. Essa reflexão é bem parecida com as sábias palavras do apóstolo Paulo, que provavelmente você já tenha lido.

Nesta música o Raul está criticando veementemente todos aqueles que tem uma resposta na ponta da língua para tudo. Essas pessoas são perigosas. Eu tenho medo delas! Sempre que encontro gente assim, a primeira coisa que faço é ficar em silêncio e me distanciar o máximo possível.

Pessoas que tentam impor verdades a você normalmente são inflexíveis, muitas vezes arrogantes e tem um falso sentimento de superioridade. Todos sentimentos destruidores da nossa natureza primordial, voltada para o bem, o amor, a compaixão, a inclusão, o desapego, o desprendimento etc.

Em minha opinião, a frase mais incrível desta música é esta aqui:

“Antes de ler o livro que o guru lhe deu
Você tem que escrever o seu”

Concordo demais com ela e tenho procurado realmente vivê-la. Quase todos os dias vêm pessoas me dizer que preciso ler o fulano de tal, ouvir a música tal, ir para o encontro de fulaninho não sei aonde, rezar a oração X, interceder pelo santo y.

Sempre me pergunto: Por quê?

Para a maior parte das pessoas, o questionamento quanto a coisas que são chamadas “sábias”, ou “santas”, “santificadoras”, “espirituais” etc é algo errado, que não se deve ser feito. E claro que no meio disso tudo estou incluindo os dogmas, OK?

Por que não posso questionar? Há entre as pessoas um medo tão grande e tão enraizado de ir parar no inferno, de ser um transgressor, de estar fazendo algo errado… Por acaso é errado pensar? É errado usarmos o nosso cérebro e brincarmos um pouquinho com ele e nossas capacidades?

Calma! Se eu lhe afrontei de alguma forma, não precisa ler esse texto até o fim. Já falei desde o início deste blog que ele foi criado para ser lido por pessoas que tem a mente aberta, que não tem medo de questionar tudo aquilo que nos foi imposto goela abaixo e se permitem pensar em coisas que são consideradas intocáveis.

O Raul está querendo nos dar um “sacolejo” com essa música, e essa frase em particular é um apelo da sua parte para que você tenha coragem de questionar o seu padre, o seu pastor, o seu líder religioso, o seu mestre, o seu guru etc.

Eles não são e jamais serão melhores do que você, sabia? Você é único! Você é uma joia rara posta nesse mundo para brilhar. Você é a luz das estrelas, a cor do luar e as coisas da vida, como diria meu amigo Raul.

Esse livro que o Raul está falando não precisa necessariamente ser um livro físico, editado numa livraria. Não é isso! Esse livro é a sua vida! Essa maravilha que é a sua vida.

Ele está sugerindo que você tenha senso crítico ao ouvir as palavras de um guru. Muitas vezes elas são falsas e lhe convencem como um patinho a acreditar em uma verdade absoluta, coisa que jamais existirá…

Enfim! Essa linda música do Raul tem muito mais a falar, mas ficarei por aqui. Quem sabe futuramente escreva mais coisas a partir dela!

Para continuar essa viagem filosófica, compartilho um vídeo bem interessante que nos faz pensar sobre essa pergunta tão difícil e tão instigante:

O que é a verdade?

Escreva o seu próprio livro