Uma interpretação alternativa da música “A maçã”

Por Isaias Costa

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Fiquei muito feliz em receber recentemente uma mensagem especial de uma amiga Raulsseixista me instigando a olhar para a linda música “A maçã” do Raulzito, sob uma perspectiva completamente diferente da que a maior parte das pessoas pensa!

A interpretação mais conhecida diz que ele compôs essa música como forma de “libertar” um de suas ex-esposas para viver outros amores! Acredito que essa interpretação é bastante coerente, pois todas as frases da música podem ser levadas para refletir desta maneira. Mas facilmente você pode encontrar na internet pessoas falando sobre essa música nessa perspectiva!

Esse texto é bem diferente! Vou viajar total na sua letra! Se prepare, porque você vai ler coisas que nunca leu antes sobre o mestre Raul!

Para que você compreenda esse texto, é fundamental assistir ao videoclipe oficial gravado pelo Raul em 1975, que dá pistas desta interpretação alternativa. Confira!

Se esse amor ficar entre nós dois
Vai ser tão pobre amor, vai se gastar

Se eu te amo e tu me amas
E um amor a dois profana
O amor de todos os mortais
Porque quem gosta de maçã
Irá gostar de todas
Porque todas são iguais

Se eu te amo e tu me amas
E outro vem quando tu chamas
Como poderei te condenar
Infinita tua beleza
Como podes ficar presa
Que nem santa no altar

Quando eu te escolhi para morar junto de mim
Eu quis ser tua alma, ter seu corpo, tudo enfim
Mas compreendi que além de dois existem mais
O amor só dura em liberdade
O ciúme é só vaidade
Sofro mas eu vou te libertar
O que é que eu quero se eu te privo
Do que eu mais venero
Que é a beleza de deitar

**********************

No clipe desta música, o Raul é apresentado como um funcionário que está trabalhando estressado, está cheio de afazeres e volta para casa dormindo dentro do metrô. Chega em casa, troca de roupa e vai deitar para dormir e começar tudo de novo no dia seguinte.

Em nenhum momento do vídeo é feita insinuação sexual nem nada parecido, o que me leva a desconfiar que a mensagem original da música tenha a ver com seu relacionamento amoroso na época!

Essa é realmente uma dúvida que eu tenho e creio ser bem difícil de ser respondida por algum raulsseixista que esteja lendo esse texto!

Estou escrevendo esse texto dando bastante abertura para que você reflita sobre essa música junto comigo OK? Ele talvez seja apenas uma mera divagação, mas pode ser que não seja não é mesmo? hehehe

Enfim! É bem provável que essa música se trate de um diálogo dentro da sua MENTE, que está vivendo em conflito com o seu CORAÇÃO.

Ele começa dizendo: “Se esse amor ficar entre nós dois. Vai ser tão pobre amor, vai se gastar. Se eu te amo e tu me amas. E um amor a dois profana. O amor de todos os mortais. Porque quem gosta de maçã. Irá gostar de todas. Porque todas são iguais”.

Ele canta essa parte da música olhando para um espelho, ou seja, ele mesmo refletido! Não é bacana? Pensei nessa frase como sendo a pobreza de viver um amor formatado de acordo com o convencional, com a mediocridade! O amor de todos os mortais seria isso, os medíocres, que infelizmente, compõem a maior parte da população, não só do Brasil, mas do mundo inteiro.

E a maçã seria os caminhos convencionais oferecidos pela sociedade: ganhar dinheiro, trabalhar para enriquecer um patrão, ter reconhecimento, conquistar títulos, status e uma série de coisas que ele via como besteira, como baboseira!

E quem gosta de uma maçã vai gostar de todas, pois todas as maçãs são iguais, só levam você para o mundo da MATÉRIA, nenhuma maçã pode lhe levar para a TRANSCENDÊNCIA, para o mundo da ESPIRITUALIDADE, que encantava e fascinava o grande Raulzito!

Na estrofe seguinte ele diz: “Se eu te amo e tu me amas. E outro vem quando tu chamas. Como poderei te condenar. Infinita tua beleza, como podes ficar presa. Que nem santa no altar…”

Essa é uma estrofe complexa, mas creio que ele esteja falando sobre a grandeza que existe na nossa alma, essa grandeza que pode nos levar a sermos eternizados, como ele mesmo foi! Mas a maior parte das pessoas prefere ficar presa à vidas medíocres e sem graça.

Então como uma espécie de chacota, ele compara com a vida das freiras, que no seu entendimento, é monótona, escravizante e sem prazer!

Essa estrofe é um diálogo entre o CORAÇÃO e a MENTE. “Se eu te amo e tu me amas e outro vem quando tu chamas, como poderei te condenar…” talvez seja a tristeza do coração ao ver a mente seguir um caminho triste que só leva ao sofrimento associado à vida materialista!

É como se o coração dissesse: “Não vá por aí meu amigo! Não vá por aí! Esse caminho não vai te fazer feliz…”.

O único caminho que pode nos fazer felizes é o caminho que tem coração. Como falei em outro texto: “Há tantos caminhos, tantas portas, mas somente um tem coração…”.

Há tantos caminhos, tantas portas

Então o coração questiona que não pode condenar a mente porque ela escolheu seguir um caminho de sofrimento, entende? Eu acho essa visão bem interessante!

Depois ele vai para as frases finais da música: “Quando eu te escolhi para morar junto de mim. Eu quis ser tua alma, ter seu corpo, tudo enfim. Mas compreendi que além de dois existem mais. O amor só dura em liberdade. O ciúme é só vaidade. Sofro mas eu vou te libertar. O que é que eu quero se eu te privo, do que eu mais venero, que é a beleza de deitar…”

Nestas frases, é como se o Raul estivesse dizendo que está vivendo em conflito, porque está infeliz com o seu trabalho massacrante. Essa escolha de “morar junto de mim” seria a MENTE querendo dominar tudo, inclusive seu coração, suas escolhas, seus amores, seus sonhos! É daí que vem a perspectiva do “além de dois”, esse além são todos os setores da vida do Raul: amor, trabalho, dinheiro, família, saúde, lazer, espiritualidade etc.

O amor só dura em liberdade é sem dúvida a frase que resume essa música! Ou seja, o amor só pode existir na vida do Raul e de qualquer pessoa se ele vem em LIBERDADE.

Ciúme é sentimento de quem está identificado com a mente! Nessa frase ele está dizendo que sente ciúme, mas que vai libertar a mente. Talvez esse libertar possa ser uma mulher, mas acredito que ele quis ir mais além, talvez seja a sua mente, para dar lugar ao seu coração, e desta forma, abrir espaço para o verdadeiro amor!

Então ele conclui dizendo que o que mais venera é deitar. Na interpretação clássica, esse deitar significa “fazer sexo”. Pode ser! Mas pode e provavelmente é bem mais que isso! Esse deitar talvez seja a LIBERDADE DE PENSAMENTO.

O deitar tem essa conotação, deixar os pensamentos quietos, calmos, para poder relaxar.

Perceba! Quando vamos deitar para dormir, estamos com a mente cheia por ter passado o dia inteiro trabalhando, então serenizamos, aquietamos nossa mente, e dentro de minutos, já estamos dormindo!

O que o Raul mais gostava era de filosofar sobre a vida, se aprofundar nos mistérios da humanidade, conhecer o universo, os discos voadores etc. Ele associou essa sua busca com a palavra “deitar”, que significa deixar seus pensamentos livres!

Enfim! Essa é a que chamo de “interpretação alternativa” para essa música! Convido você a assistir mais uma vez a esse clipe para analisar se o que falei faz sentido com o que o Raul mostra nas cenas dele!

Eu acredito que essa é uma interpretação coerente, apesar de meio maluca! Mas isso é bom, afinal, o Raul também era meio maluco, não é? Por causa disso ele despertou fãs meio malucos como ele!

Nos vemos nas próximas viagens filosóficas rausseixistas…

 

 

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Uma interpretação alternativa da música “A maçã”

Eu perdi o meu medo da chuva

Por Isaias Costa

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O Raul Seixas, com toda a poesia que existia em suas letras e canções, transmitia a cada um de nós, muito mais do que apenas meras ideias em 2 ou 3 minutos.

Toda uma filosofia de vida era transmitida em cada uma de suas músicas. Escutando bastante e estudando suas preferências, o que ele também gostava de ler, pouco a pouco estou descobrindo coisas que só um olhar mais atencioso consegue!

Vou fazer uma breve reflexão a partir da mensagem mais metafísica da linda música “Medo da chuva”. Nesse texto não vou me ater a letra completa porque já escrevi um texto com a interpretação desta música completa, cujo tema principal é um casamento que não deu certo. Se você ainda não leu esse texto, recomendo fortemente, o link está logo abaixo…

Medo da chuva

Nesta estrofe, existe uma ideia interessantíssima que tratarei a seguir:

Eu perdi o meu medo

O meu medo, o meu medo da chuva

Pois a chuva voltando

Pra terra traz coisas do ar

Aprendi o segredo, o segredo

O segredo da vida

Vendo as pedras que choram sozinhas

No mesmo lugar

*********

Esse medo da chuva tem uma relação com o medo das mudanças e também o medo de ter uma liberdade maior.

Ele fez essa metáfora com a chuva para revelar uma das maiores maravilhas que existe na natureza, TUDO ESTÁ EM FLUXO PERMAMENTE.

Se você observar bem a natureza, nela não existe nada parado, até mesmo as pedras sabia? As pedras estão passando o tempo todo pelo processo de erosão, principalmente aquelas que se encontram no mar, recebendo a força das ondas. Dentro de centenas de anos, todas as pedras que hoje existem se transformarão em areia, em pó!

Então o Raul diz na música: “Aprendi o segredo da vida vendo as pedras que choram sozinhas no mesmo lugar”.

Essas pedras são os seres humanos que tem medo dessa liberdade, medo de serem quem são, que se escondem por trás de uma máscara, de um sacramento da igreja que no fundo eles não acreditam profundamente.

A água que vem com a chuva um dia esteve na terra, evaporou, trouxe coisas do ar e volta para a terra para iniciar um NOVO CICLO.

A água que passa por um ciclo é a mesma? Definitivamente não! Cada vez que ela evapora é uma nova água. Por exemplo! Uma água que evapora na praia de Copacabana pode vir a cair no interior da Bahia levada pela própria natureza. Não é interessante isso?

O Raul utilizou toda a sua genialidade para nos mostrar que se buscarmos a segurança em algo que não existe como o sacramento do casamento, podemos nos arrepender amargamente e sofrermos em demasia. A nossa confiança deve estar sempre dentro de nós mesmos e o amor profundo deve sempre brotar dos corações livres e conscientes.

O Raul de certa forma conseguiu amar com mais consciência, como ele era uma metamorfose ambulante, suas próprias mudanças não favoreciam que ele continuasse com a mesma esposa pelo resto da vida. Hoje consigo compreender muito bem isso, e não há nada de errado com isso, porém, a igreja vem nos impor que devemos ficar junto com a outra pessoa “até que a morte nos separe”.

Para o Raul isso é um atentado contra a liberdade, por isso que ele diz: “porque quando eu jurei meu amor eu traí a mim mesmo…”.

Portanto, que essa genial música do Raul lhe leve a refletir com mais profundidade sobre a sua vida. Será que você não está querendo tornar permanente algo que no fundo sente que é impermanente?  Será que você acabou se transformando em uma pedra que sonha no mesmo lugar, que não ousa, que não se rebela com essa sociedade doente? Será que você tem medo da chuva, de ser como essa água que evapora e retorna em outro lugar mais bonito, mais florido, mais perfumado?

Reflita! Em minha opinião, essa é uma das músicas do Raul que mais nos permite refletir de forma profunda. Boa viagem…

 

 

 

Eu perdi o meu medo da chuva

Medo da chuva

Por Isaias Costa

Chuva

Hoje eu vou falar de um assunto muito sério e você precisa ter sangue no olho para ler o que vou colocar aqui. Os CASAMENTOS DE FACHADA. Vou falar sobre esses casamentos a partir de uma das músicas mais bonitas do Raul Seixas, chamada medo da chuva, aqui está o link com ela (sugiro que escute a música antes de continuar a ler o post).

Tem uma palavra que o Raul coloca logo no início da música que explica um dos principais motivos para a ruína dos casamentos, a palavra “escravo”. Raul está falando dos JOGOS DE DOMINAÇÃO. Muitos casais não entendem uma coisinha muito simples chamada INDIVIDUALIDADE. Não entendem a dimensão do outro, pensam que, só porque são casadas têm o direito de interferir nas opções e escolhas individuais do parceiro. Não! Isso não existe. Para se ter um casamento equilibrado é preciso respeitar a dimensão da individualidade e ter respeito por isso, não invadir os territórios que não são seus. É por isso que Raul fala: “é pena que você pense que eu sou seu escravo, dizendo que eu sou seu marido e não posso partir…”.

O campo magnético dos apegados
Outra coisa que ele fala na música tem a ver com a DÚVIDA. Em um trecho ele diz: “como as pedras imóveis na praia eu fico ao seu lado sem saber, dos amores que a vida me trouxe eu não pude viver…”. Nesse trecho ele está confrontando algo muito grande chamado MONOGAMIA (ter apenas um parceiro sexual) e aqui você deve me entender muito bem. Eu não sou nem contra e nem a favor da MONOGAMIA, sou neutro, falo como o Raul, “faze o que tu queres, há de ser tudo da lei…”. Porém, o casamento é um caminho que deve ser muito bem pensado, porque se trata de um caminho monogâmico. Se você não consegue ser monogâmico, como era o caso do Raul Seixas, é preferível não se casar. É por isso que ele fala: “porque quando eu jurei meu amor eu trai a mim mesmo. Hoje eu sei, que ninguém nesse mundo é feliz tendo amado uma vez, uma vez…”. Se você sente dúvidas se vai querer ficar pra sempre com uma única pessoa é melhor adiar a ideia do casamento até que isso esteja muito bem esclarecido na sua mente. Portanto, evitemos a DÚVIDA.

No refrão ele fala sobre a sua própria natureza humana: “eu perdi o meu medo, meu medo, meu medo da chuva. Pois a chuva voltando pra terra trás coisas do ar. Aprendi o segredo, o segredo, o segredo da vida, vendo as pedras que choram sozinhas no mesmo lugar”. Aqui ele está falando de si como uma metamorfose ambulante. A chuva que volta para a terra trazendo coisas do ar são as transformações da sua vida e esse medo da chuva que ele fala é esse medo de estar casado com alguém que não lhe faz feliz e que só atrasa a sua vida, e eu acho fantástica a colocação do final do refrão, que é algo que pouquíssimas pessoas conseguem compreender. Ele está falando dos muitos homens e mulheres que vão seguindo suas vidas infelizes com casamentos de fachada. A frase “vendo as pedras que choram sozinhas no mesmo lugar” são exatamente essas pessoas que estão sofrendo nesses casamentos, mas são incapazes de tomar uma atitude para se separarem, ficam chorando sozinhas no mesmo lugar, morrendo de medo. Ele fala que observa esses casais e aprendeu a NÃO SER COMO ELES. A não ser ACOMODADOS como eles. Essa é a questão crucial e mais polêmica da música. Esse medo da chuva foi uma forma bem poética que o Raul conseguiu expressar os casamentos de fachada. Aos que tem sensibilidade para compreender a sua mensagem ele está encorajando a se libertar deste enorme grilhão que é um casamento sem fundamentos sólidos.

Tem mais uma coisa que não é colocada explicitamente na música, mas quero comentar também. Outro fator muito relevante na destruição dos casamentos é a INDIFERENÇA, que é um dos sentimentos mais devastadores que pode existir, inclusive eu já escrevi um post falando sobre o quão deletério é esse sentimento e que ele supera até mesmo o ódio. A indiferença tem uma relação profunda com a acomodação. É aquela velha história de que o ser humano se habitua a tudo. Pois é! Habitua-se até às desgraças, faz com que uma vida infeliz e infrutífera tome conta de si. Chega! Vamos ter amor próprio! Esse amor próprio que estou falando é o que pode levar você a escolher a melhor pessoa possível para dividir a vida em um casamento feliz e harmonioso. Vou deixar o link com o post falando sobre a indiferença.

A relação entre amor, ódio e indiferença

Quero salientar que acredito muito no valor do casamento. Porém é algo que exige muita maturidade e principalmente uma DECISÃO de viver ao lado da mesma pessoa pelo resto da vida. Todos nós temos a capacidade de viver ao lado de uma pessoa especial pelo resto da vida, mas isso está na ampla questão das escolhas da vida. Eu tenho consciência da importância das escolhas da vida e essa música vem falar sobre isso também. Enfim! Essa música do Raul é riquíssima de ensinamentos e eu aprendi muito com ela. Espero que você também aprenda…

 

Nota: Texto publicado originalmente no blog “Para além do agora

Medo da chuva