Eu também vou reclamar

Por Isaias Costa

Toca Raul! Pelo amor de Deus!
Toca Raul! Pelo amor de Deus!

O Raul Seixas era um cara muito ambicioso e queria registrar seu nome para sempre no mundo da música e no coração dos seus fãs.

Uma de suas músicas que adoro e está repleta de ensinamentos sobre sua ambição é a “Eu também vou reclamar”, cuja letra completa está logo abaixo:

Eu também vou reclamar – Raul Seixas

Mas é que se agora
Pra fazer sucesso
Pra vender disco
De protesto
Todo mundo tem
Que reclamar

Eu vou tirar
Meu pé da estrada
E vou entrar também
Nessa jogada
E vamos ver agora
Quem é que vai güentar

Porque eu fui o primeiro
E já passou tanto janeiro
Mas se todos gostam
Eu vou voltar

Tô trancado aqui no quarto
De pijama porque tem
Visita estranha na sala
Aí eu pego e passo
A vista no jornal

Um piloto rouba um “mig”
Gelo em Marte, diz a Viking
Mas no entanto
Não há galinha em meu quintal
Compro móveis estofados
Me aposento com saúde
Pela assistência social

Dois problemas se misturam
A verdade do Universo
A prestação que vai vencer
Entro com a garrafa
De bebida enrustida
Porque minha mulher
Não pode ver

Ligo o rádio
E ouço um chato
Que me grita nos ouvidos
Pare o mundo
Que eu quero descer

Olhos os livros
Na minha estante
Que nada dizem
De importante
Servem só prá quem
Não sabe ler

E a empregada
Me bate à porta
Me explicando
Que tá toda torta
E já que não sabe
O que vai dá prá mim comer

Falam em nuvens passageiras
Mandam ver qualquer besteira
E eu não tenho nada
Prá escolher

Apesar dessa voz chata
E renitente
Eu não tô aqui
Prá me queixar
E nem sou apenas o cantor

Que eu já passei
Por Elvis Presley
Imitei Mr. Bob Dylan, you know…
Eu já cansei de ver
O Sol se pôr

Agora eu sou apenas
Um latino-americano
Que não tem cheiro
Nem sabor

E as perguntas continuam
Sempre as mesmas
Quem eu sou?
Da onde venho?
E aonde vou, dá?

E todo mundo explica tudo
Como a luz acende
Como um avião pode voar
Ao meu lado um dicionário
Cheio de palavras
Que eu sei que nunca vou usar

Mas agora eu também resolvi
Dar uma queixadinha
Porque eu sou um rapaz
Latino-americano
Que também sabe
Se lamentar

E sendo nuvem passageira
Não me leva nem à beira
Disso tudo
Que eu quero chegar
-E fim de papo!

****

O Raul viveu no tempo de repressão da ditadura militar, e ele compôs músicas altamente críticas nesse tempo. Músicas que foram censuradas.

Por causa do seu envolvimento com o misticismo através da sociedade alternativa, ele foi expulso do Brasil, pois os generais achavam que o Raul era uma ameaça ao bem comum.

O ano foi 1974, ele foi torturado e exilado. Foi para os EUA. Por lá cresceu em conhecimentos esotéricos e místicos, gravando um dos seus álbuns mais incríveis, o “Gita”, cheio de músicas extremamente profundas, que até hoje não são bem compreendidas, inclusive a própria “Gita”, que só consegue entender de verdade quem já leu o livro famoso chamado “Bhagavad Gita”.

Esse disco estourou no Brasil e ele foi “convidado” a voltar! (não esqueça das aspas OK!).

É por causa disso que ele fala nas primeira estrofes: “Porque eu fui o primeiro. E já passou tanto janeiro. Mas se todos gostam. Eu vou voltar.”

Esse voltar é o retorno ao Brasil porque todos gostaram das suas músicas. E esse primeiro tem a ver com a audácia do Raul em compor músicas críticas e com letras profundas.

A estrofe seguinte mostra o jeito desconfiado do Raul perante os generais do Brasil, homens autoritários e violentos. Eles são a “visita estranha” que ele quer distância.

Depois ele fala um pouco dos besteiróis que estão nos jornais e do comum na vida diária: Um piloto rouba um “mig”. Gelo em Marte, diz a Viking. Mas no entanto. Não há galinha em meu quintal. Compro móveis estofados, ae aposento com saúde, pela assistência social. Dois problemas se misturam, a verdade do Universo, a prestação que vai vencer.

Como em “Ouro de tolo”, o Raul “achava tudo isso um saco”. Inclusive as chatices do rádio. É por isso que ele diz:

Ligo o rádio
E ouço um chato
Que me grita nos ouvidos
Pare o mundo
Que eu quero descer

Nessa estrofe ele está falando sobre a música “Pare o mundo que eu quero descer”, de Silvio Brito. Um grande sucesso de 1976, que o Raul achava uma chatice.

Ele continua a música com um monte de lamentações. E é engraçado a crítica que ele faz a música “nuvem passageira”, do Ednardo, que estava “bombando” nas rádios e o Raul achava um porre de tão chata.

Falam em nuvens passageiras
Mandam ver qualquer besteira
E eu não tenho nada
Prá escolher

Esse nada pra escolher é a falta de opções das rádios brasileiras.

Depois ele faz a associação com outros artistas como Elvis Presley e Bob Dylan, que ele gostava de ouvir.

E fala do Belchior e sua famosa canção “Apenas um rapaz latino americano”, uma de suas principais canções, que também tem um tom de lamentação por ser nordestino sofrido, vindo do interior para a cidade grande São Paulo. Por isso que ele fala:

Mas agora eu também resolvi
Dar uma queixadinha
Porque eu sou um rapaz
Latino-americano
Que também sabe
Se lamentar

E ele termina a música dizendo assim:

E sendo nuvem passageira
Não me leva nem à beira
Disso tudo
Que eu quero chegar
-E fim de papo!

Ou seja, ele queria fazer algo que impactasse bem mais as pessoas que a música “Nuvem passageira”, detestada por ele!

Em resumo, é mais ou menos isso que essa música está querendo dizer. O Raul gostava de ser original e essa música é uma reclamação ao lixo musical que estava se disseminando. O título é isso “Eu também vou reclamar”, não como fez o Belchior, mas reclamar da qualidade das músicas.

Fico imaginando se o Raul vivesse no mundo de hoje. Meu Deus! Ele ia morrer do coração com o lixo musical propagado pra todo lado.

Ele que fez questão de ultrapassar a barreira do som, fazendo o que pôde às vezes fora do tom”, ficaria arrasado de ver os músicos se movendo a passos mais lerdos que de tartaruga! É uma pena, esse homem faz e vai continuar fazendo muita falta.

O interessante no Raul é que ele pegou o impedimento da ditadura militar para transcender a ele próprio e se tornar um músico muito mais completo a partir desta proibição.

Isso é outra das coisas que me faz ser fã de carteirinha dele. Ser impulsionado pela proibição.

Para terminar, uma reflexão interessante sobre isso:

Nossas ações podem estar impedidas, mas não há impedimento para nossas intenções e disposições. Porque nós podemos nos acomodar e adaptar. A mente adapta e converte ao próprio interesse o obstáculo a nossas ações.

O impedimento a ação avança a ação.

O que bloqueia o caminho se torna o caminho.

— Marco Aurélio

Faça como o Raul e o Marco Aurélio! O impedimento a ação avança a ação. Avance nos seus sonhos, planos e metas! Torço por você!

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Eu também vou reclamar

8 comentários sobre “Eu também vou reclamar

  1. Rafael disse:

    Só uma ligeira correção, a música Nuvem Passageira é do cantor e compositor gaúcho Hermes Aquino. Ednardo, conterrâneo de Belchior, é cantor e compositor da famosa canção Pavão Misterioso

    1. Você tem certeza que essa música é do Hermes Aquino, Rafael? Agradeço demais o seu comentário e contribuição. Muito obrigado mesmo, mas eu tava lendo aqui e tirei essa informação de uma dissertação de mestrado do Paulo dos Santos intitulada “Raul Seixas: A mosca na sopa da ditadura militar” e desta dissertação tem dizendo que a música é do Ednardo, lá na pág. 58.
      Você pode me passar algum link falando sobre a composição desta música? Valeu meu amigo!

  2. Luis André Aragão Frota disse:

    A parte que fala do “apenas um rapaz latino americano que não te cheiro nem sabor” pode ser em referência a vida dele no exilio? Já que lá nos EUA ele não era conhecido ?

    1. Ainda não tinha pensado nisso meu amigo! Pode ser que seja isso mesmo. Nessa época ele ainda não era tão famoso e reconhecido e fez essa música como uma forma escrachada de dizer que também tinha a capacidade de fazer uma música repleta de lamentações, pois esse tipo de composição era o que mais fazia sucesso nessa época.
      O cara era muito ligado das coisas! hehehe
      Abração! Viva Raul!

  3. Renato disse:

    A citação do chato é uma resposta de Raul a Sílvio Brito que citou Raul em tá todo mundo louco, aliás o começo da música é um plágio declarado de Ouro de tolo.

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