Uma interpretação da música “Sapato 36”

Por Isaias Costa

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Em minha opinião, uma das músicas mais geniais do Raul Seixas é a “Sapato 36”, lançada em 1977, no álbum “No dia em que a Terra parou”. Eu levei muito tempo para entender o real significado da sua letra. Nesse texto, farei uma breve reflexão sobre ela. A letra completa com o vídeo estão logo abaixo.

Sapato 36 – Raul Seixas

Eu calço é 37
Meu pai me dá 36
Dói, mas no dia seguinte
Aperto meu pé outra vez
Eu aperto meu pé outra vez

Pai eu já tô crescidinho
Pague prá ver, que eu aposto
Vou escolher meu sapato
E andar do jeito que eu gosto
E andar do jeito que eu gosto

Por que cargas d’águas
Você acha que tem o direito
De afogar tudo aquilo que eu
Sinto em meu peito
Você só vai ter o respeito que quer
Na realidade
No dia em que você souber respeitar
A minha vontade
Meu pai
Meu pai

Pai já tô indo-me embora
Quero partir sem brigar
Pois eu já escolhi meu sapato
Que não vai mais me apertar
Que não vai mais me apertar
Que não vai mais me apertar

**********

A primeira coisa a dizer é que a interpretação desta música não tem nada a ver com as palavras literais dela. Ou seja, quem tenta interpretá-la literalmente não entendeu nada sobre seu sentido.

Comecei a ouvi-la ainda criança, com meus 7 a 8 anos de idade, e nesse tempo ouvia pensando assim: “Caramba! O Raul era muito rebelde. Não tinha o menor respeito pelo seu pai. Não gostava dele…”. Hoje eu acho graça do tamanho da minha inocência.

O Raul nunca odiou o seu pai biológico! Na realidade eles se davam muito bem e o Raul tinha um respeito imenso por ele. Foi a partir do seu pai, que gostava muito de ler livros de Filosofia, que ele começou a viajar por esse muito fabuloso.

Quem é esse pai dito na música? Sabe quem é? O nosso país! Nosso querido Brasil.

Enfim! Ele reclama do “Sapato 36” como forma de criticar o sistema trabalhista massacrante e cheio de imposições que nosso país sempre teve. Estamos mergulhados num capitalismo selvagem sem tamanho. O Raul não suportava regras, seguir padrões, ser igual a todo mundo, e dizer que vai escolher o “Sapato 37” é uma forma de dizer: “Não vou me adequar a tudo! Não vou ser igual a todo mundo”.

A primeira estrofe fala sobre o CONFORMISMO. Ele fala sobre as pessoas que sentem os pés doerem, já cheios de calos, mas continuam apertando o pé com o “Sapato 36”. Ou seja, as pessoas que NÃO OUSAM, que não saem da MEDIOCRIDADE.

O Raul não! Ele diz já estar “crescidinho”. Isso é para dizer que ele está fora desta triste curva da mediocridade, na qual, infelizmente, está presente a maioria esmagadora das pessoas.

“Vou escolher meu sapato e andar do jeito que eu gosto” quer dizer isso, que ele vai fazer exatamente o que acha melhor para ele e ponto final.

Depois vem o refrão:

Por que cargas d’águas
Você acha que tem o direito
De afogar tudo aquilo que eu
Sinto em meu peito
Você só vai ter o respeito que quer
Na realidade
No dia em que você souber respeitar
A minha vontade
Meu pai
Meu pai

Essa estrofe é bem interessante, porque ele está criticando a “Ditadura Militar”. Ele como cantor e compositor, não podia gravar qualquer música. Tudo que fosse crítica ao sistema de governo era automaticamente barrado. Várias de suas músicas foram barradas pela censura, sendo gravadas e divulgadas anos mais tarde.

Esse afogar o que sente no peito é a proibição de dizer o que pensa e fazer o que se quer de verdade.

Depois ele fala que só respeitará os governantes do Brasil no dia em que lhe respeitarem, o que só aconteceu depois da sua morte. Preste atenção! Os fãs do Raul sempre o veneraram ainda em vida. Porém, seu nome só se tornou um mito depois que ele morreu. É isso que estou querendo dizer. No fim das contas, a vontade do Raul nunca foi respeitada como ele gostaria que fosse…

A última estrofe é a mais genial da música, em minha opinião, pois eu vejo pelo menos 3 interpretações possíveis que são extremamente coerentes. Vejamos!

Pai já tô indo-me embora
Quero partir sem brigar
Pois eu já escolhi meu sapato
Que não vai mais me apertar
Que não vai mais me apertar
Que não vai mais me apertar

Ele está querendo dizer nesta estrofe que já está indo embora e quer partir sem brigar. A primeira e provavelmente a que ele quis dizer é que ele foi embora para os EUA. Nos anos de chumbo da Ditadura, o Raul foi preso e chegaram até mesmo a torturá-lo. Essa música certamente foi inspirada em parte pela raiva que teve que ser contida por ele no ano de 1974, quando isso aconteceu.

Quem lê sobre ele, sabe que ele amava os EUA e praticamente se considerava um norte-americano. Esse sapato que não ia lhe apertar é sua liberdade de estar nos EUA sem repressões ditatoriais do Governo.

A segunda interpretação é que ele escolheu seu sapato chamado música. Ele se realizava com a música e podia ganhar a vida muito tranquilamente com ela. Ou seja, com a música ele não podia se tornar um escravo.

E a terceira interpretação, tão interessante como as outras, tem a ver com sua própria genialidade. Se você percebe! Essa música tem o sentido totalmente diferente do literal, ou seja, ele compunha quase todas as suas músicas nas entrelinhas, exatamente para não ser barrado pela censura. Esse sapato que não vai mais apertar quer dizer isso: “Já que vocês não aceitam minhas músicas, vou colocar tudo o que eu penso de um jeito que só os inteligentes vão entender…”. Tenho certeza absoluta que esse pensamento se passava na cabeça desse gênio chamado Raul.

O que achou? Muito bacana essa música não é? Essa é uma das muitas letras do Raul riquíssimas de conteúdo de mensagens nas entrelinhas.

Vamos aproveitar a mensagem que ele quis passar e também escolhermos nosso próprio sapato, sem deixar ser governado por ninguém. Somos livres e esse era o maior desejo do Raul para as pessoas que lhe seguiam. Sejamos todos LIVRES

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Uma interpretação da música “Sapato 36”

19 comentários sobre “Uma interpretação da música “Sapato 36”

    1. Bom amigo sua interpretação e otima mas eu tenho a minha é ela diz muito sobre oque vivi na minha família pois era o rebelde da família é meu pai ditava as regras e todos tinham que respeita e ainda sou um rebelde por natureza

  1. Luís disse:

    Continue escrevendo Isaias. Gosto muito das tuas interpretações. Posso não comentar muito, mas sempre acompanho. Com relação à essa música, eu interpretava de outra forma, não levei para esse lado do contexto da ditadura. Interessante e faz todo o sentido. Quando li o que tu escreveu, a minha mente deu um estalo! hehehe abração.

    1. Muito legal esse clipe que você produziu Djailson. Legal pegar as fotos do tempo de maior repressão da ditadura militar para ilustrar esse clipe, pois a interpretação dessa música é bem por aí mesmo.

      Vou compartilhar esse clipe lá na fanpage para todos os nossos amigos raulsseixistas!!
      Abração!

  2. ELTON RODRIGO DE ALMEIDA disse:

    Do tipo, vocês fantasiam que cantores são/eram deuses! Cara, do tipo: é tudo invenção sua, e o tal raul seixas não é melhor que nós!!!
    Parem de achar que era revolução e tal!!! E também a música não tem nada desse significado, é tudo muito abstrato e isso tudo é viagem sua!!

    1. Não viaja, cara.
      Eu interpretei a música quase da mesma forma e pesquisei pra ver se eu estava certo.
      Talvez ainda você seja muito inocente pra perceber o real significado da música.

      1. ELTON RODRIGO DE ALMEIDA disse:

        Fala ai, o sabedoria do google! e facebook, tenho pena de vocês, bando de paga pau do caralho!!

  3. Bruno Faciroli disse:

    Achei perfeita sua interpretação, e fico com a ideia dos EUA, pois toda música ele se refere ao País, que até hoje vivemos em um país onde mudou os anos e números, mas as ideologias ainda são as mesmas.

    1. Não é à toa que ele às vezes se achava mais um cidadão americano que brasileiro. Mas ele amava nosso país, o que não gostava era da ignorância das pessoas, e por conta dessa ignorância ele se sentia um estrangeiro, sabe? Tento me colocar no lugar do Raul e imagino sua tristeza. Sua depressão veio muito por causa disso, quase ninguém entendia sua filosofia de vida, seus pensamentos, seus sentimentos. É triste! Mas continuemos com esperança meu amigo! O Raul deixou seu legado nos levando a buscar a LIBERDADE! É através dela que iremos construir um Brasil mais honesto e justo!
      Abração e obrigado pelo comentário!

  4. diego disse:

    Isaías achei interessante sua interpretação porém acho que ele está falando de Deus nessa música.gostaria de prolongar essa conversa um abraço!

    1. Rsrsrsrs! Caramba! Para esticar a conversa e falar sobre isso, teria que escrever um livro inteiro à respeito! Nunca tinha parado para pensar nisso. Eu acredito que a música tenha mesmo o intuito de falar da ditadura militar e da repressão, mas realmente ela pode SIM ser levada para Deus! De todas as frases, a que no meu ver mais pode ser lavada para Deus é essa: “Você só vai ter o respeito que quer na realidade no dia em que você souber respeitar a minha vontade…”.
      Principalmente entre os cristãos é comum se ouvir: “Que não seja feita a minha vontade, mas a vontade de Deus…”. Eu acho essa frase bem engraçada, porque como pedir a vontade de Deus se ele não faz nada pela gente? O que “Deus” pode fazer é iluminar a nossa consciência para que busquemos a saúde integral. Ele em si não faz nada, pois Deus é o TODO, é uma energia cósmica, não um coisa, não um “Pai”, não é um ser humano! E o Raul sabia muito bem disso!
      Gostei demais do teu comentário meu amigo! E você? O que acha? Qual é a tua visão sobre isso? Já que foi você que levantou a conversa não é? hehe
      Abração!

      1. diego disse:

        Olá, minhas considerações referentes a música.
        1-“Eu calço é 37, meu pai me da 36” acredito que seria uma referência a um estilo de vida indesejado ao que ele pretendia, se formos considerar o Raul como “eu lírico” nessa música podemos notar que muitos de nós nos enquadraríamos nessa música a exemplo que todos nós pedimos sempre uma vida melhor para deus, entretanto, muitos de nós não temos a vida que desejamos minha interpretação dessa parte seria “eu peço uma vida fácil para deus, mas deus só tem me dado essa vida apertada”.

        2-“dói mas no dia seguinte aperto meu pé outra vez” nessa segunda estrofe entendo que, viver apertado(não financeiramente) tem sido difícil mas deixar de viver não é uma opção nobre, exemplo “a vida tem sido difícil mas voltarei a viver a mesma “vidinha””.

        3- “Pai eu já estou crescidinho, pague pra ver que eu aposto vou escolher meu sapato, e andar do jeito que eu gosto” neste trecho acredito que seja o momento em que ele abre mão dos “cuidados de deus”, sabemos bem que ele mesclava seu “mundo interno” entre religião, misticismo e ateísmo, sendo muito influenciado por Aleister Crowley em certos períodos da sua vida…essa mescla de incertezas traz no próximo trecho…

        4- “pq cargas d’agua você acha que tem o direito, de afogar tudo aquilo que eu…sinto em meu peito, vc só vai ter o respeito que quer, na realidade, o dia em que vc souber respeitar…a minha vontade…meu pai, meu pai, meu pai” aqui eu acredito o seguinte aquele que não tem paz de espirito e ainda não se encontrou, ou mais, uma mentalidade genial é questionadora, o ateu o verdadeiro ateu ele é sempre muito inteligente(em sua grande maioria) e questionador ao mesmo tempo ele é triste por não ter algo “superior” a que recorrer o sucesso nem sempre é sinônimo de felicidade(parei de divagar rs).

        Voltando ao assunto naquele ponto Raul deixou de seguir a deus ele não quer mais aquilo pra sua vida! e vai viver, vai ser “gauche” na vida vai viver sem espiritualidade, o sapato não apertar significa a libertação de costumes e crenças das proibições que vive quem crê em deus…ufa, enfim a maior ligação que consegui avaliar a respeito da ditadura é o momento que ele fala “pai já estou indo me embora quero partir sem brigar…já escolhi meu sapato… que não vai mais me apertar”, fora essa parte não consegui ver ligação com o período da ditadura, se puder me explicar mais sobre isso eu agradeço comenta aí, forte abraço!

  5. Muito boa essa tua interpretação para essa música Diego! Super coerente e elaborada. Esse Raul era demais. Eu gosto de associar sua música até mesmo com as parábolas contadas por Jesus Cristo, podem ter diversas interpretações.

    O Raul realmente falava sobre SE LIBERTAR do “monstro sist” em quase todas as suas músicas, e nessa não é diferente. Achei legal o aperto do sapato associado com estar preso ao sistema, é bem isso mesmo!

    Mas de acordo com a interpretação que eu coloquei, esse apertar do sapato seria a CENSURA, que não permitia que suas músicas fossem liberadas, então ele pensou em seguir carreira nos EUA, que seria o sapato 37, onde não seria censurado pelas mensagens!

    O afogar o que sente no peito seria os ditadores não permitirem que ele se expressasse. O Raul ficava revoltado com eles, principalmente por saber que eles eram todos uns ignorantes, extremamente arrogantes e agressivos!

    O escolher o sapato e andar do jeito que gosta é falar suas mensagens mesmo sabendo que elas seriam mal interpretadas e não aceitas por muita gente. Esse é seu decreto de liberdade, do “faz o que tu queres”.

    Enfim! Tem tanta coisa não é? Mas é como te disse! Sua interpretação é incrível, e já está aqui registrada! Com certeza nosso amigo Raul ficou bem feliz onde quer que esteja! Sua mensagem está sendo resgatada e dissecada por cada vez mais pessoas! Isso é bom demais!

    Continue lendo que esses dias vou publicar um texto viajante trazendo uma nova interpretação da linda música “A maçã”. Outra música que parece uma parábola, tem várias interpretações possíveis! Abração meu amigo!

  6. Léo Santos. disse:

    Após parar para analisar a música de Raul, Sapato 36, conclui o mesmo que você a respeito do Brasil, etc. Não havia pensado na segunda interpretação, mas a achei muito boa.
    Receba amplexos de Léo Santos. Quatro Barras – PR

  7. O mais interessante é que a letra de muitas músicas se encaixa em alguma situação da vida. Pela minha relação com meu pai, na forma com que ele tende a dizer que meus planos não darão certo, essa letra diz muito para mim, ainda mais agora que estou prestes a deixar a casa dele.

    1. É isso mesmo Leandro! O Raul fazia músicas que permitiam sim a interpretação de cada um do seu modo. Essa é uma das coisas que mais me faz ser fã dele. Suas letras são bem subjetivas e elevam o astral dos que ouvem. Por exemplo, “Gita”. Essa música é um hino para a elevação da consciência: “Eu sou a luz das estrelas…”. Incrível!
      Te desejo muito sucesso na sua vida meu amigo!

  8. João Rocha disse:

    ninguém quer viver oprimido.nem na direita nem na esquerda. era o momento do Raul e não cabe ninguém ficar fazendo apologias a suas ideias.

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